24 de junho de 2017

O patamar.


   Na semana passada, para ser rigoroso no sábado, uns amigos convidaram-me para marchar pela cidade. Uma marcha de orgulho lgbt. Não, não marchei. Entretanto, dei com o final do evento na Ribeira das Naus, junto ao Tejo. Ouvi uns discursos e umas palavras de ordem, vi muita bandeira ondulando, balões multicores. Dezenas de jovens em pé e sentados na relva, confraternizando.

    O activismo por causas nunca despertou em mim o interesse, nem pela afamada causa lgbt. Falar de sexualidade não é tabu, nunca o foi, mas faz parte da minha e da intimidade de cada um, pelo que sempre procurei manter certo recato quanto a esse assunto. No que diz respeito às marchas e às manifestações, estive numa em frente à embaixada da Rússia. Creio que aí há o que fazer. Temos pessoas em campos de trabalhos forçados, tidas como criminosas quando o único delito foi o de amar um ser do mesmo género. É absurdo, transtorna qualquer um. Associei-me por um imperativo de consciência. Já as marchas, não fazem sentido num país cujo ordenamento jurídico prevê leis iguais para hétero e homossexuais, proibindo toda a discriminação em função da orientação sexual. Os transexuais também podem sujeitar-se à operação de redesignação sexual e usufruem de protecção legal. Nessa matéria, estamos evoluidíssimos. Figuramos entre os mais avançados da Europa. As marchas, se tanto aqui, perderam o fulgor. E não se lida com o preconceito assim, no meu entender, mas educando as pessoas. Tão-pouco peço para que se escondam, é evidente, até porque a visibilidade da dita comunidade lgbt é manifesta. Há pessoas lgbt na televisão, na rádio, na imprensa escrita. Não se vêem na política e no desporto, é verdade.

    Amanhã será o dia do arraial. Estarei presente, à partida. Passei por um há uns anos. Estive pouco tempo. Não custa ir e ver. Da mesma forma como não ligo a activismos, não os diabolizo. Encaro como mais uma noite quente de Verão, agradável, num ambiente descontraído, sem imposições ou horas de entrada e saída. Se não gostar, venho para casa, naturalmente. O conhecimento só enriquece.


     Posto isto, eu faria tudo diferente. A opinião é livre e responsável: a sexualidade não deve ser uma bandeira, seja ela qual for, e nem deve ser motivo de orgulho ou de vergonha. Não devemos dar tanta importância àquilo que os outros pensam que fazemos na cama. Já passámos esse patamar de afirmação. A sociedade está cansada de saber que há homossexuais, transexuais (e perdoem-me os mais ais que há, que são muitos; não os conheço a todos). Não será promovendo marchas que lutaremos devidamente contra os obstáculos que se erguem diariamente a quem é homossexual e transexual, quer seja no local de trabalho, na escola ou na família.

      Na lei, tudo está feito. Como referi acima, precisamos educar as pessoas para a diferença na igualdade, para a imperiosa necessidade de respeitar para colher o respeito. Esse trabalho faz-se desde tenra idade. A alguém formatado, e embora acredite que as pessoas possam mudar, o processo será mais difícil, mas igual. Educar, educar e educar. Leva o seu tempo. Portugal avançou substancialmente. Se compararmos à realidade do Estado Novo e mesmo à das duas primeiras décadas após Abril, facilmente verificamos o salto qualitativo.

       Não me alongo mais. Um bom São João, sendo caso disso.

18 de junho de 2017

Pedrógão Grande.


    Nunca fui a Pedrógão Grande. Nunca, felizmente, vivi um incêndio. Todavia, torna-se recorrente, a cada ano, escrever sobre estes flagelos que se abatem sobre o país, e sobre a Europa, sazonalmente. Não estamos em período de rescaldo. As chamas ainda deflagram pelo centro do país, consumindo hectares, ceifando vidas, provocando o caos e a dor. Estamos, todos, perturbados, perplexos, consternados, sobretudo pelo número avassalador de vítimas mortais. Sessenta e duas até ao momento, em dados que são permanentemente actualizados.

    Já sabemos o que pode e deve ser feito. A ladainha repete-se. Ordenamento florestal, pequenos coutos de mais fácil vigilância, cuidados acrescidos com a cultura do eucalipto, limitar a desertificação do interior, numa enumeração não exaustiva. Há estudos, há opiniões. Há, às vezes, culpados que nos transcendem. Fatalidades. Parece ter sido o caso. Temperaturas descomunais, incomuns, superiores a quarenta graus centígrados, uma humidade próxima do zero, ventos fortes, propícios a incrementar os fogos. Fenómenos naturais que não podemos prever.

    Só podemos minorar os danos e chorar as vítimas. Tentar aprender com os erros. Os incêndios repetir-se-ão - o Verão nem começou. Insisto na ideia: ainda que tenhamos sido negligentes com as florestas e que haja muito por mudar na nossa atitude, haverá imprevistos, sempre estaremos sujeitos a condições climáticas desfavoráveis. A busca por culpados é uma tendência irresistível, e compreendo a indignação. Somos muito severos connosco.

    Queria deixar uma palavra de apreço e de profunda gratidão às corporações de bombeiros, àquelas dezenas de homens e mulheres que arriscam as suas vidas pelas nossas. São os verdadeiros heróis, mesmo numa história que talvez, desta vez, tenha como único vilão o tempo. E a nós como cúmplices.

17 de junho de 2017

Feira do Livro.


    Na passada quinta-feira, dirigi-me uma vez mais à Feira do Livro. Ano após ano, sempre que posso acabo por passar por lá. Quando estudava, os descontos da Almedina e da Coimbra Editora eram bastante apelativos. Adquiria livros caríssimos com descontos de encher a vista. Nos anos mais recentes, e deixando o Direito de lado, fui percebendo que os alfarrabistas valiam a pena, enquanto que as grandes editoras praticavam preços exorbitantes para um conceito de feira. Soube - é verdade, foi uma novidade para mim - da dita happy hour, a determinados dias da semana e a um horário específico - com livros a cinquenta por cento de desconto imediato, com o senão de obrigatoriamente a primeira edição remontar a um período superior a dezoito meses. Bom, nenhum problema de maior por aí.

    Cheguei pelas nove e pouco, após ter subido a Avenida, bebi um café e pus-me a vasculhar. Pouco demorei. Muni-me logo de uma obra de Haruki Murakami, tão afamado e de quem nunca li nada, e de um romance histórico de Miguel Real. O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo e A Guerra dos Mascates. Quis comprar algo que envolvesse História, sendo ficção. Ambientado, digamos. Creio que terei feito boas compras. Ainda não lhes peguei. Pretendo começar pelo livro de Miguel Real, porque deposito maiores expectativas na obra de Murakami. E os livros vêm a calhar, uma vez que terminei há dias um dos clássicos de Saramago, que deixei a meio, algures por Fevereiro, por puro e assumido tédio. Venho fazendo uma colecção de livros, que se lêem numa tarde, e portanto tenho tido a mente ocupada.

     Sou muito metódico nos custos. Uns chamam-me forreta. Aceito a crítica, mas não corresponde à verdade. Simplesmente sei poupar e gosto de o fazer. Custa-me, digo-o frontalmente, gastar dinheiro na alimentação e em transportes. Em livros, no cinema, no teatro, numa exposição, em tecnologia que me faça falta e por aí, considero um bom investimento e dou o esforço por merecido. Contudo, divirto-me com conta, peso e medida. Tenho saído várias vezes, jantado fora de casa inúmeras, e não choramingo. Sei, entretanto, o meu limite. Hoje mesmo, para concluir, fui à Mouraria, petisquei, assisti ao bailarico e consegui divertir-me. Tenho um amigo a trabalhar por lá neste período das festas. Foi giríssimo. Só lamento que, por motivos logísticos, não tenha podido adiantar-me para lá da meia-noite - noitadas, como havia dito, não se repetirão de ânimo leve.

13 de junho de 2017

Santo António já se acabou.


    Ontem, e porque não desgosto de arraiais, passei uma noite agradável num dos bairros típicos de Lisboa. A bem dizer, o que me motiva não é a música, como se calcula, nem a confusão; gosto de me inebriar naquele espírito folclórico, tão tradicional e carismático. Os Santos Populares são uma das imagens de marca do país, que fizemos o favor de exportar para o Brasil, nomeadamente.

    Não consegui arrumar uma mesa num dos inúmeros restaurantes. Foi mais divertido assim, porque saciei a fome com uma bifana e duas farturas, numa das barraquinhas alinhadamente dispostas pelas ruelas. Diverti-me imenso. Mais do que em jantares, do que em saídas repetidamente programadas. E tive a melhor das companhias. A noite e a tarde deram, também, para perceber quem quero e não quero na minha vida, quem deixei entrar e de quem me pretendo afastar, porque não me sinto bem quando estou por perto. E mediante que sou um ser solitário, muito auto-suficiente nos afectos (compensando a falta dela noutros), pelo menos sei que estou a salvo da malícia alheia.

     Demorei-me pouco. Cheguei a casa a horas decentes. Não dou os Santos por encerrados, não, porque pretendo repetir. Estamos no mês das festas, e ainda me falta comprar o manjerico.

8 de junho de 2017

A união das coroas de Castela e Aragão.


    No dealbar do século XV, mais concretamente em 1412, invocando-se razões dinásticas e de relação de forças nobiliárquicas e militares, havia-se chegado a um acordo, o Compromisso de Caspe. Através dele, determinava-se que o trono vago de Aragão seria ocupado por um nobre castelhano, Fernando de Antequera, à época regente de Castela devido à menoridade de João II, e desde então, também, rei de Aragão. Esta conjuntura vem sido entendida como um primórdio do que viria a ser a união das coroas castelhana e aragonesa.

    O filho de Fernando de Antequera, I de Aragão, Afonso V de Aragão, preferiu dar preferência aos seus interesses na península itálica. Ao tornar-se rei de Nápoles, deixou-se envolver a tal ponto pela cultura renascentista, que despontava, que não mais regressou à sua pátria. Entretanto, o seu sobrinho, Fernando, e futuro monarca daquela coroa, teria um papel determinante no processo histórico dos reinos peninsulares.

     Os laços de parentesco que uniam as diversas entidades peninsulares eram intrincados. Surgiam movidos pelos recorrentes matrimónios. Assim se estabeleciam alianças políticas. O Reino de Castela, num turbulento processo que não abordarei agora, coube a Isabel, no seguimento da morte do pretendente varão melhor posicionado e de ter sido afastada da sucessão outra candidata, a famosa Joana, a Beltraneja, cuja filiação sempre foi posta em causa e que colhia o apoio de D. Afonso V de Portugal, vencido na Batalha de Toro, em 1476, e que viria a reconhecer, três anos mais tarde, pelo Tratado de Alcáçovas (1479), a realeza de Isabel, casada com Fernando de Aragão. Estes dois monarcas ficariam irremediavelmente ligados à história de Espanha, pois o esboço do que seria a moderna Espanha que conhecemos deu-se por acção destas duas personagens.

     Levantara-se, antes, o problema de saber com quem deveria casar a jovem princesa, uma questão que envolvia os três reinos peninsulares, uma vez que a escolha do esposo equivaleria a unir Castela a Aragão ou a Portugal. Coube, aqui, a habilidade de João de Aragão e dos partidários castelhanos. Isabel aceitou Fernando em 1469. A nobreza castelhana, que ora apoiava Joana, casada com D. Afonso V de Portugal, ora Isabel, casada com Fernando II de Aragão, aquietou-se. Com a morte de Henrique IV, pai de Joana, em 1474, a guerra tornou-se uma inevitabilidade.

     O enlace de Isabel com Fernando, os Reis Católicos, não correspondeu à completa realização da tendência unificadora de Castela, mas a situações que poderiam sofrer alterações. Não havia, de jure, uma unidade. Castela e Aragão, e o mesmo se poderia dizer de Navarra, conquistada e incorporada em Castela três anos antes, mantiveram os seus foros e as suas prerrogativas separadamente. Nesse sentido, o matrimónio não configurou, pois, um remate do processo desencadeado, mas o surgimento de uma fase de unificação histórica, cujo destino dependeria da relação de forças e da vontade política orientada para uma entidade una. Castela, na união, assumiu um papel de preponderância. Possuía maiores recursos e depressa se tornou o epicentro da união. Foi Castela que dirigiu a política externa dos Reis Católicos, sem prejuízo de se considerar também as possessões mediterrânicas de Aragão, e não só os domínios atlânticos de Castela.

     Isabel de Castela revelou uma tenacidade que a levou a conseguir o que jamais algum outro rei castelhano havia conseguido. Munida de inquebrantável vigor, eliminou a desordem que se instalara entre a nobreza, e que tanta inquietação havia trazido ao reino. Ordenou pesadas sanções aos nobres que contra ela se haviam rebelado. Conseguiu até mesmo sujeitar as poderosas ordens da cavalaria, cujas riquezas começaram a servir os desígnios da Coroa, no seguimento do cargo de Grão-Mestre outorgado pelo Papa a Fernando, seu marido. As Cortes reuniam-se progressivamente menos, na política centralista que também se verificava em Portugal com D. João II, que subordinou a grande nobreza à Corte, tendo vencido o duque de Bragança e o duque de Viseu, em 1483 e 1484, respectivamente.

      De extrema importância para a política externa castelhana foi também a introdução, em Espanha, da Inquisição, bem assim como o recrudescimento da intolerância com os judeus e os mouros. Para os Reis Católicos, a religião católica, passo a redundância, representava um elemento fundamental na unificação. Era-lhes insuportável a convivência com o derradeiro reduto mouro na península, Granada, que havia conseguido sobreviver aos outros reinos mouros, muito devido à fragilidade da monarquia castelhana até então.
      A guerra teria uma duração de dez longos anos, até Boabdil capitular diante dos monarcas espanhóis, em 1492. Terminava, assim, um capítulo de oitocentos anos desde a ocupação muçulmana da península. No mesmo ano, Colombo descobria a América ao serviço dos Reis Católicos. Começava a desenhar-se um outro na história da nova potência peninsular, desta feita unificada.

5 de junho de 2017

Jantar de blogues.


    No sábado, realizou-se o jantar anual de blogues, um evento dinamizador da blogosfera. Venho participando desde a edição de 2013. Conheci alguns amigos, curiosamente os que se mantêm, nesse jantar. À distância de sete, oito anos, posso afirmar, com segurança, que alguns houve que recusei por não me sentir preparado. Preparado para me dar a conhecer. Não por temer, como muitos, perder a oportuna protecção do manto do anonimato, mas por não sentir afinidade suficiente para tal. Continuo a sentir-me confiante para abordar qualquer assunto, e o facto de progressivamente falar menos da minha vida pessoal prende-se ao processo evolutivo natural. As pessoas mudam, e a minha vida é pouco estimulante para que encha publicações.

    O jantar teve lugar num restaurante no Príncipe Real, o Frei Contente, a que faço publicidade porque considero um espaço acolhedor, com pessoal simpático e atencioso. A comida é boa, o preço é acessível. Gostei bastante. Já tinha gostado no ano passado.
    Confraternizou-se, revi um velho amigo. Sentaram-me à cabeceira. Foi fantástico, tive uma visão desafogada sobre os presentes.

    Seguiu-se uma visita curiosa, diria eu, ao bar de um hotel, o The Late Birds Lisbon. Não posso dizer que tenha ficado fã, todavia gostei do conceito e do sossego. A ideia, estou em crer, era a de proporcionar o diálogo, a partilha, o convívio. Ficámos comodamente instalados no piso de cima, com direito a música ambiente vinda de um arraial popular. Foi para lá que seguimos, onde estivemos por breves instantes. Um arraial dos Santos Populares, que Lisboa começa a ficar ao rubro. Muita gente nas ruas, pessoal jovem, sobretudo. Muito consumo de álcool, excessivo.

     A noite, pelo menos em grupo, terminou com a ida a uma festa, se é que lhe podemos chamar assim, a Conga. Foi a minha primeira, e seguramente a última, não porque tenha algo contra, nada disso, mas porque sofrerei, avento eu, de uma hipersensibilidade auditiva. Entrei, fiquei nem dez minutos e saí. Eu sinto dor nos ouvidos. Não se trata de não gostar de sons excessivamente altos; trata-se, isso sim, de um profundo desconforto. Felizmente, o segurança percebeu o meu incómodo e aconselhou-me a falar com a menina, que devolveu o dinheiro. Ainda estive uns minutos sentado num parapeito, à entrada, e fui alvo dos olhares indiscretos de um matulão moreno. Nada que deixasse de me fazer sentir como peixe fora d'água. Muito respeito para quem gosta, eu não me identifico. Prefiro barzinhos, cheguei a insinuar um, que não colheu o apoio necessário.

      E por aqui ficou a minha noite, com uns imprevistos pelo meio, que se ultrapassaram.
      Reitero, uma vez mais, que gostei muito, principalmente pela companhia. Diverti-me, e isso compensa. Aprendi umas coisinhas por outras: noitadas, em circunstâncias análogas, não se repetirão.
      Uma palavra ao organizador, o adolescente, que está de parabéns; à leitora Magg, autora do banner, e a todos os que participaram.

31 de maio de 2017

The Circle.


   Abri uma excepção àquilo que havia dito, ou seja, que iria reduzir os artigos respeitantes às minhas idas ao cinema. Não deixei de ir; pelo contrário, tenho ido mais do que nunca. Não quero, até porque não levaria jeito, passar a ideia de que pretendo tornar-me num crítico de cinema. Falta-me bagagem cinematográfica (eu bem digo que serei um gajo interessante aos cinquenta anos).

   Este The Circle merece, então, a excepção. Desde o Lion, algures por Fevereiro, presumo, que um filme não me suscitava tanto o interesse. Não li qualquer sinopse. Sabia que tinha assistido a um trailer, mas tão-pouco me recordava de nada.

    A empresa / rede social Circle é um eufemismo de outra empresa que tão bem conhecemos. Com planos que deixariam Orwell corado, Bailey, protagonizado por Tom Hanks, acredita ser possível conectar o mundo na sua rede, deixando a descoberto a vida de biliões de pessoas. Mae Holland consegue uma entrevista para trabalhar na empresa, ficando com o lugar e apercebendo-se desde cedo que pouca ou nenhuma privacidade era permitida aos funcionários da Circle. Desde as actividades nos dias de folga até aos batimentos cardíacos, tudo era monitorizado por funcionários.

     Mae torna-se pioneira num projecto-piloto, quando passa a estar 24h por dia a ser seguida por milhares de pessoas através de câmaras devidamente instaladas no seu quarto e na sua casa. Umas microcâmaras, camufladas, inclusive, eram o último grito em tecnologia, que permitiria colocar o mundo online, encontrar qualquer pessoa em milésimos de segundo, votar em actos eleitorais, tornando cidadãos e governantes, países, a bem ver, reféns da Circle.

      O filme, como se adivinha, levanta problemas éticos. Até que ponto a tecnologia pode comprimir a nossa privacidade, expondo a nossa intimidade a estranhos. Um tema actual e nada fictício. Não haverá legislação alguma que consiga proteger-nos dos avanços tecnológicos. A tendência é para que progressivamente sejamos controlados. Recordo-me, em miúdo, isto em 2001, de instalarem duas enormes câmaras no recreio do colégio. Sentia-me permanentemente vigiado. Ainda que os tribunais se decidam por inconstitucionalidades várias, os benefícios sobrepor-se-ão. Governantes e governados, na deriva securitária, exigirão bases de dados, visionamentos permanentes. As microcâmaras farão com que nem saibamos que estamos a ser observados. Conscientemente, já partilhamos várias das nossas actividades online, onde estamos, o que fazemos e com quem. Eu mesmo.

      O interesse do filme reside aí. Faz, pelo menos foi esse o efeito que teve em mim, com que coloquemos questões básicas. Um acto tão comum como pegar no telemóvel e publicar que estamos no cinema X à hora Y pode ter consequências nefastas, por-nos em perigo, desde logo, e permitir que dados referentes à nossa vida sejam monitorizados sabe-se lá em que parte. As sedes pouco contam num mundo virtual. Clara Ferreira Alves, jornalista, tem-se pronunciado, e com ela concordo, sobre estas matérias. Convém que saibamos quando desligar. E, uma vez mais, aplico-me o conselho.

      Uma palavra para os actores: o Tom Hanks, as usual, fenomenal; a Emma Watson continua com aquele ar da miúda do Harry Potter, não cresce, decididamente, e não me pareceu ter uma actuação fora de série. Foi boazinha no que fez, esforçou-se. O filme vale pela inquietação que provoca.

29 de maio de 2017

Mil.


   Pensei em se deveria assinalar o feito. Nada de extraordinário. Trata-se de um patamar sem qualquer importância. Eu atribuo à estética do número. 1000. É redondinho. Acresceu um dígito. Esta é, então, a milésima publicação do blogue, que terá, seguramente, mais textos do que fotos ou vídeos. Orgulho-me disso. São centenas de artigos, crónicas e alguns ensaios (os possíveis num blogue) originais. Será interessante, daqui a uns aninhos, compilá-los numa obra qualquer. Lá para os quarenta, cinquenta, que é quando dizem que atingimos a maturidade. Como presumo que estamos sempre em constante aprendizagem, acredito que serei um tipo interessante daqui a vinte anos.

    Uma tarde molhada, que inviabilizou por completo poder assistir a um concerto dos Clã, que adoro ( « devia ser como no cinema, a língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém » ). Com o percalço da chuva, não deixou por isso de ser agradável. Visitei a exposição de Almada Negreiros, patente na Gulbenkian até dia quatro do mês que vem, uma visita que andei a protelar. Como referi numa outra plataforma, vale bem a pena. São dois pisos de telas e esboços, bem divididos e devidamente identificados com as legendas. É um espólio numeroso. Exige calma e paciência, até pelo aglomerado que se gera. Foi das visitas de que mais gostei. O amigo que me acompanhou despachou-se prontamente, enquanto que eu me demorei o tempo suficiente. Vi tudo com atenção.

    Almada Negreiros foi um artista extraordinário, multifacetado até na pintura. A determinado momento, a sua versatilidade enquanto pintor reportou-me aos heterónimos de Fernando Pessoa, com quem, aliás, privou de perto. Enquadrando-o no Modernismo português, Almada Negreiros inspirou-se nas correntes europeias e em nomes maiores das artes plásticas espanholas. Morou em Madrid, tendo essa estadia se reflectido numa parte considerável do seu legado.

    Deixo-vos algumas fotos, o que não é menos caricato por constarem numa publicação em que destaco outras novecentas e noventa e nove praticamente sem elas.




           


25 de maio de 2017

Portugal está na moda.


   Já li esta frase algures, esta semana, e achei curiosa. Não sei até que ponto estaremos na moda, mas estamos a viver momentos de optimismo, sem euforia. O Presidente da República disse, há um dia ou dois, que temia que a manifesta recuperação económica levasse os portugueses a um estado de alienação. Até ao momento, não o sinto. Estamos, é certo, a sentir emoções inéditas. No desporto e na música, jogamos cartas; temos um alto dignitário no cargo de maior relevo entre as organizações internacionais; após décadas de marasmo e de anos de pesados sacríficos, vislumbramos a saída da crise, constatamos o crescimento económico e até no turismo, a diminuição do desemprego, o aumento dos salários e das pensões. A última boa notícia prende-se à recomendação da Comissão Europeia para que o Conselho da União Europeia retire o país do Procedimento por Défice Excessivo, o que acarretaria, ao menos na psique nacional, um alívio. A decisão está para breve.

   Creio que, enquanto colectividade, estamos a recuperar algum do amor próprio perdido. O português médio subvaloriza-se. Temos uma alma maior do que o corpo. Demonstrámos, pela história, feitos heróicos, soberbas façanhas. Nos últimos anos, convenceram-nos de que não éramos bem europeus, e que não poderíamos mais viver como tal. Aliás, a Europa sempre nos foi meio estranha. Só começámos a olhá-la quando nos afastámos do mundo. Jamais foi a nossa prioridade. Estarmos na periferia ajudou-nos a manter as fronteiras praticamente intactas desde Alcanizes, há setecentos e muitos anos, e a contornar os principais conflitos estalados no continente. Deu-nos fôlego para as aventuras d'além-mar, onde provámos, sem grande esforço, ser os melhores. Desengane-se quem crê que ser português não nos custou suor. Conquistámos o direito a sê-lo. Os nossos novecentos anos comprovam a luta, nem sempre justa, para escapar às forças centrípetas da península.

    Encaro os tempos que se avizinham com confiança, todavia com prudência. Provou-se que a austeridade não era o caminho certo, e que devolver às pessoas o que lhes era devido teve um efeito positivo na economia. Porque os números falam por si. A matemática é uma ciência exacta. Longe de querer agradar com populismos, o Governo acreditou ser possível contrariar uma corrente ideológica que via, em medidas que devem ser excepcionais, uma orientação política definida, como se não mais nos restasse do que viver em infinita contenção e sob permanentes ameaças de descalabro das contas públicas e de bancarrota.

    Espero que a moda seja um indicador de mudança, também na nossa atitude, mais obstinada, chauvinista, que em dose certa pode produzir pequenos milagres.

19 de maio de 2017

O Ornitólogo.


   Desconcertante filme a que assisti, ontem, no canal TVCine 2. As obras que ostentam a chancela João Pedro Rodrigues são quase sempre polémicas, oníricas. O Ornitólogo não foge à regra. Conheci este realizador em pequeno, com o épico O Fantasma. A um miúdo, o filme perturba, sobretudo porque foca um submundo duvidoso de fantasias insondáveis e fetiches. Odete surpreendeu menos. Morrer Como Um Homem, o pior dos três, teve direito a que fosse ao cinema com o pai, que é extremamente à-vontade com a temática LGBT. É esta, aliás, a característica comum aos filmes de João Pedro Rodrigues.

   O Ornitólogo começa com um homem solitário, que trabalha justamente como ornitólogo, que parte numa expedição para estudar o processo de acasalamento e de nidificação de uma determinada espécie de aves. Durante uma travessia de caiaque, sofre um acidente provocado pela ondulação, sendo posteriormente resgatado, inconsciente, por duas turistas chinesas que fazem o caminho de Santiago. Após tomar conhecimento da fé de ambas, toma um chá tradicional chinês e acorda amarrado por cordas, com uma pujante erecção nas suas ceroulas brancas. Procura desamarrar-se. As cordas que envolvem o seu corpo acentuam-lhe as formas masculinas. A temática sadomasoquista, já explorada em O Fantasma, surge aqui, revigorada e adaptada, em meio com a fé cristã. Fernando não é apenas o ornitólogo; é o mártir. As turistas querem castrá-lo ao terem tomado conhecimento da sua apostasia.

    Consegue fugir, levando alguns dos seus objectos. Assiste à festa dos rapazes, numa madrugada, no meio de uma floresta do interior transmontano, e ao sacrífico de um animal. O folclore e as seitas pagãs misturam-se com o desejo. Um dos rapazes vislumbra-o ao longe e desculpa-se aos seus pares, em mirandês, com a necessidade de se afastar. Fernando, protegido pela penumbra e abrigado sob uma pedra, recebe a providencial urina do careto, pelo rosto e pelos lábios, vinda de cima.

    Pela manhã, observa a arte pastorícia de um rapaz surdo, a quem indaga pelo desaparecimento dos seus pertences. Nadam juntos. Deitam-se na areia, escrevem os seus nomes com um pequeno caniço. Jesus, é este o nome do rapaz. Fernando empresta os seus binóculos para que Jesus possa ver uma ave com maior precisão. O rapaz encosta-se no seu peito. Beijam-se avidamente, rebolando pela areia. A paixão assolapada é bruscamente interrompida quando, à partida, o rapaz tira uma camisola com capuz do seu saco, que Fernando identifica como sua. Ao ser confrontado, Jesus puxa de uma navalha. Envolvem-se numa luta corporal e Fernando consegue desferir-lhe um golpe certeiro no coração, que mata o pastor.

     Persiste a caminhada de Fernando na floresta, em busca de uma saída que o leve ao carro. Pontualmente, recebe SMS no telemóvel, um dos objectos que havia recuperado, de alguém que está preocupado com a sua saúde. Fernando toma comprimidos. Ao longo do filme, não conseguimos identificar para quê. Consegue albergar-se numa tenda improvisada. Cuida de uma pomba branca, símbolo da paz e da castidade, que recupera misteriosamente de um trauma na asa. Encontra o seu documento de identificação com a fotografia picada e as impressões digitais borradas, o que evidencia que foi usado num ritual. Os instintos vocacionais de Fernando são testados no sermão aos peixes.


     Não é difícil perdermo-nos no decurso do filme. Há um encontro fortuito com três amazonas que falam latim e um milagre, quando Fernando assume as vestes de Santo António e traz o irmão gémeo de Jesus, Tomé, ou o próprio Jesus, à vida. A trama termina com Fernando enquanto Santo António, incorporado pelo próprio realizador, passeando-se numa rua da Galiza, pelo que me pareceu, com o jovem careto.

      A longa-metragem é uma história de sobrevivência, de cruzamento entre o sagrado e o profano, de um homem, com a sua libido, que passa por uma experiência transcendental que o modifica para sempre. O homoerotismo, desde logo pelos planos minuciosos, é uma constante. O actor principal, Paul Hamy, foi escolhido a rigor. Em cada detalhe do filme verificamos o desfiar dos estereótipos associados, e muito justamente, aos homossexuais.

      Gostei particularmente do filme, pese embora todo o meu preconceito com o cinema português, demasiado monótono para a minha busca constante por estímulo.

14 de maio de 2017

Amar por todos.


    Uma noite inesquecível para Portugal, semelhante àquela que vivemos nem há um ano, com a vitória no Europeu de futebol. Porque estes eventos, ainda aos que não lhes atribuem qualquer significado, colocam-nos sob a mira de milhões, dão-nos alento, são quase que o grito que damos ao mundo. Existimos. Conseguimos ser os melhores.

     Eu, particularmente, não aprecio a Eurovisão, mas deixei-me embalar no bonito poema que Luísa Sobral escreveu para que o irmão o cantasse. Há aquele coração dela que pode amar pelos dois, sobretudo pelo dele, por todos os problemas que vieram a público. É um poema que, cantado, acompanhado pelos violinos, ganha uma dimensão que não parece resultar das suas palavras aparentemente tão simples.

     A língua portuguesa brilhou em Kiev. Pôs estrangeiros a chorar ao som da voz de Salvador, muitos dos quais não compreendendo nada. É a linguagem universal da música, a capacidade de nos comover. Amália teve a experiência pela União Soviética e pelo Japão, quando entoou grandes poetas portugueses.

      Amar Pelos Dois conseguiu, ainda, transportar para a Europa toda a alma portuguesa, nostálgica, melancólica. É o triunfo do Portugal português, sem adornos, sem danças histriónicas e maquilhagens pesadas. Um homem e um microfone. A voz e a sua expressão corporal tão peculiar comunicaram com a Europa de lés a lés. Não precisámos de mais. Limitámo-nos a ser o que verdadeiramente somos: simples.

      A nossa língua e o Salvador estão de parabéns. E a irmã do Salvador. A vitória é-lhes inteiramente merecida. Obrigado por levarem a portugalidade até à Hungria, à Lituânia, à Geórgia e a tantos outros. Imprimimos o nosso nome na história do maior evento musical anual europeu.

10 de maio de 2017

Fátima.


   Fátima tem sido, pelos tempos, um assunto tabu para mim, a ponto de, presumo, nunca o ter abordado aqui. Na família, tenho de tudo: crentes, menos crentes, a mãe é crente. E eu nem sei como me hei-de posicionar. Por temor reverencial, assumo, provavelmente tenho evitado debruçar-me sobre as aparições. Evito pronunciar-me, não vá ser verdade. É cobardia, é, mas também é respeito. Tive uma fase mais esquerdista na minha adolescência, antes de me ter posicionado, e em definitivo, assim espero!, ao centro. Ainda assim, jamais afrontei a religiosidade alheia. É disparatado. Podemos discordar, sim - devemos, aliás, se é o que a nossa consciência dita - mas, em matérias tão sensíveis como a religião, devemos ter um cuidado redobrado. A fé não se explica. É tão forte que chega a curar, a melhorar sintomas de doenças. Até pelos seus aspectos positivos, deve ser respeitada e reconhecida como potencialmente importante. Dos seus efeitos perversos está a História cheia, e bem os conhecemos.

    Sou católico. Deixo-o aqui de forma clara. No tal período de indefinição, típico da adolescência, passei a agnóstico, quase ateu. Estava mesmo chateado com Deus. Quando os pais se separaram, aumentou essa desconfiança sobre uma figura qualquer que nos vendiam desde pequenos, sobretudo procurando atemorizar-nos com castigos. Crescer fez-me bem, até na religiosidade, porque percebi que não havia mal algum em acreditar em Deus e em até ser católico, podendo expurgar o que considerava estar errado na Igreja. Ser católico, pelo menos quanto a mim, não implica perfilhar de todas as orientações doutrinárias da Igreja. Oponho-me a algumas, concordo com outras tantas. E identifico-me como católico porque acredito na pedra angular, se me permitem, do catolicismo, que me reservo a não explorar aqui porque não é pertinente. Noutro momento, se se proporcionar, não terei problema algum em fazê-lo.

     Fátima é um dos enigmas que não dou por garantido. Ponho em causa a sua veracidade desde que me conheço. Não que desconfie da palavra dos pastorinhos, mas tento explicar Fátima contextualizando-a no tempo. As aparições foram oportunas. A anticlerical I República havia arrastado Portugal para a I Guerra Mundial - o erro que ditaria ao seu fim. O país precisava recuperar a crença, então perseguida pelos republicanos. E Fátima sustentaria o golpe de 1926 e, sobretudo, o Estado Novo de Oliveira Salazar, fortemente inspirado na doutrina social da Igreja. Fátima, pelas décadas, configurou um dos pilares do regime. Cresceu em importância e em volume de negócios. Hoje, é um fenómeno que gera milhões. Lembra-me, às vezes, os vendilhões que Jesus expulsou do templo. Quando olho para o santuário, vejo muita fé verdadeira de milhares de pessoas que para lá se deslocam, e que isso lhes faça bem; em contrapartida, há ganância, oportunismo e visível cinismo, arriscar-me-ia a dizer, por parte das entidades que gerem, e é este o vocábulo apropriado, aquele manancial de dinheiro.

     Não quero entrar muito pelas questões que se prendem mais à fé: a senhora mais brilhante do que o sol, o dito milagre - que a ciência tem procurado esclarecer, com argumentos muito lúcidos - os segredos. Tudo é possível nas efabulações. As pessoas precisam de acreditar em alguma coisa. Em religiões da palavra, como o são as religiões abraâmicas, não há, tendencialmente, símbolos e imagens. E os crentes precisam disso, precisam de orar defronte a uma imagem, de acender uma velinha, de ostentar uma cruz que os proteja. É tudo compreensível. Faz tudo parte desse grande mistério da fé. E Portugal precisava de ter um importante local de culto, como Lourdes. Um país tão católico, tão absorto na sua religiosidade e na sua tradição, não poderia passar sem.

     Simultaneamente, as manifestações de crendice e os exageros que as rodeiam não deveriam surpreender. Em mim, entretanto, continuam a provocar certa consternação. Não me sinto confortável quanto vejo o meu Chefe de Estado a beijar a mão ao Papa, um líder religioso, da religião maioritária em Portugal, seguramente que sim, mas que representa determinada instituição, sendo que o Chefe de Estado, investido como tal, representa o Estado português, laico. Incomoda-me, ainda, ver um militar, no exercício das suas funções, referir-se a um líder religioso com deferência excessiva, demonstrativa da sua crença pessoal, quando pertence às forças armadas do Estado português, laico, repito, bem como me incomoda que se suspendam acordos internacionais, que vinculam o Estado português, na recepção a um líder religioso. Se a ameaça terrorista o exige, pois ela existe para todos os cidadãos, não apenas para alguns, lá que sejam sucessores de Pedro. Se os acordos que prevêem a liberdade de circulação não protegem os direitos constitucionalmente previstos, termine-se com eles. E, aqui, de nada releva estarmos perante um Chefe de Estado estrangeiro. Vários Chefes de Estado estrangeiros têm vindo a Portugal e, que me conste, não se repôs o controlo fronteiriço.

     Fátima continuará a suscitar opiniões díspares, umas mais racionais, outras espirituais. Encontrar-se-á o equilíbrio ao manter o Estado equidistante o suficiente. Deixar com Deus o que é Deus, e limitar-se a ficar com o que é de César.

8 de maio de 2017

La France.


    Temi, assumo, temi que verificássemos o mesmo resultado que nos aguardou nos EUA. A Europa tem conhecido uns desvios à direita mais intolerante um pouco por cada país, desde os Países Baixos à Itália, à Turquia, inclusive, mas a França representa para todos bem mais. É a pátria da igualdade, da liberdade e da fraternidade, valores que presidem à Europa continental democrática. A França foi a primeira a enterrar o Antigo Regime, não sem passar por períodos políticos muito convulsos, afirmando-se como potência europeia e mundial. O expressivo império que ergueu prova a sua hegemonia. No campo das ideias, poucas nações como a francesa terão contribuído tanto para o nosso enriquecimento no direito, na filosofia, na politologia, na sociologia, áreas do conhecimento que influenciaram decisivamente épocas e regimes.

    A França representa, ainda, o empenho solidário do bloco europeu. É um baluarte na União Europeia, o seu sustento ante uma Alemanha economicamente dominante. Com o Brexit, que é uma evidência, a esperança de um eixo Paris - Berlim que permita contrabalançar o poderio da Alemanha desvanecer-se-ia, confirmando-se a vitória da Frente Nacional. O sistema francês é semipresidencialista, todavia, e inversamente ao português, com a tónica no presidencialismo. O Presidente da República é, efectivamente, o chefe da nação francesa, o definidor das orientações políticas no relacionamento da República com Estados terceiros.

     Le Pen, com o seu programa populista, poria a Europa numa crise de sustentabilidade política jamais vista. Se a UE agoniza, a líder da FN, numa França dominada tradicionalmente pelo aparelho estatal, de tudo faria para afastar o país da organização, deixando-nos a todos num impasse: sair ou ficar, condescender ou enfrentar. A decisão dos franceses nas urnas foi sábia. Emmanuel Macron tem fragilidades. Representa o sistema, com todos os seus vícios, mas soube - e ele próprio situa-se no centro político - manter um discurso equilibrado, nada excludente, pelo contrário, integrador. Enfrentou Le Pen, não a subestimando - o grande erro que se cometeu nos EUA, e conseguiu que se comprovasse nas câmaras a fragilidade das ideias de Le Pen, demagógicas, que procuram sempre aquele travo de intolerância que todos teríamos com atentados quase semanais à porta de casa. A obsessão securitária, tão previsível, e que Le Pen assumiu frontalmente, foi desconstruída. A França que a FN vendia não era a França tolerante, europeísta, laica e secular que os franceses querem ver assegurada.

     A distância que separou Le Pen e Macron, nesta segunda volta, foi expressiva. Não devemos, contudo, ignorar os onze milhões de eleitores que confiaram em Le Pen. Foi o melhor resultado da Frente Nacional, superior ao obtido em 2002, quando o pai da actual líder, Jean-Marie Le Pen, defrontou Jacques Chirac numa segunda volta. Analisando os resultados da Frente Nacional, observamos uma tendência crescente, preocupante, considerando que muito em breve os franceses terão eleições legislativas. E Macron, que há um ano ninguém diria que este desfecho seria ponderável, tem a seu favor o resultado de hoje, não acreditando eu numa surpresa a tão pouco tempo. Independente, afastou os partidos do poder da luta pelo Eliseu. É um fenómeno. Espera-se que o movimento que lidera consiga um número muito apreciável de assentos na Assembleia Nacional, mas não o suficiente para se afastar uma convivência difícil com um Primeiro-Ministro de outra cor política ou com uma composição parlamentar minoritária e adversa, o que obrigaria, como bem conhecemos em Portugal, a alianças que permitam a condução governativa do país.

     Por enquanto, e porque estes actos eleitorais das potências europeias têm sempre repercussões nos pequenos Estados periféricos, podemos suspirar de alívio. Macron é pró-europeu, segue a linha da continuidade. Uma continuidade que nos é favorável. O resto é com eles.

5 de maio de 2017

O Dia da Língua Portuguesa.


     Há uns poucos anos, o dia 5 de Maio foi institucionalizado como o Dia da Língua Portuguesa no seio da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Cada país comemorá-lo-á na sua data. Em Portugal, por tradição, a 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades; no Brasil, a 5 de Novembro, Dia Nacional da Língua Portuguesa. O dia de hoje passou relativamente despercebido entre os cidadãos lusófonos, acompanhando a fragilidade da própria CPLP. Irei falar pouco da organização, que, recordo-me, escrevi sobre ela há uns meses.

     Em que patamar estamos quanto ao nosso idioma? Pelo que venho percebendo, a língua portuguesa vem suscitando o interesse de milhões de não-lusófonos. Pela China e pelo Japão, ganha adeptos. O desditoso Acordo Ortográfico, que jamais logrou o consenso e que ainda carece de ratificação por parte de alguns Estados-membros da CPLP, está em vigor com lacunas e com falta de suporte popular, aqui e no Brasil, que os PALOP e Timor têm mais em que se preocupar. No plano das ideias, é bom ter um idioma unificado, idealmente uniformizado. Quem conhece o Acordo, sabe que a uniformização é uma falácia. As omissões são mais que muitas. A eliminação de sinais gráficos e de determinadas consoantes tornou, em alguns casos, vocábulos em aberrações ortográficas, esteticamente feias, linguisticamente intoleráveis.

     A despeito das polémicas, é de saudar a unidade da língua. É ainda de saudar que os países africanos que foram antigas províncias ultramarinas a tenham adoptado como seu idioma oficial, veicular. Que o Brasil a use, ao seu jeito, com desinvestimento dos sucessivos governos na educação e com milhões que a dominam mal, mas que a use e que lhe chame aquilo que ela é, portuguesa. Que os timorenses a queiram aprender cada vez mais. Em quinze anos de independência, passámos de 5 % para 20 % de timorenses que conseguem expressar-se em português, provavelmente longe do domínio aceitável, mas encarando-a como elemento identitário e diferenciador. Ora, temos, lusófonos, de observar o lado positivo. Temos um idioma uno. Há, por parte das entidades governativas, vontade em mantê-la coesa. Em ensiná-la. O Instituto Camões, que vem-se substituindo em competências ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, está presente em variadíssimos países. Centenas de milhares de alunos aprendem-na com avidez. Namíbia e Uruguai são dois exemplos de países que, pela proximidade a Angola e ao Brasil, respectivamente, vêem uma mais-valia na inclusão da língua portuguesa nos seus currículos.

     Um dos principais desafios para as próximas décadas, a par da propagação do idioma em países alheios à lusofonia, é o de se cimentar a língua portuguesa nos falantes maternos, procurando-se que estes atinjam um domínio culto do idioma, que consigam formular raciocínios bem estruturados, com uma ortografia e uma sintaxe aceitáveis. Não basta saber falar; há que saber falar bem. O futuro da língua portuguesa depende do grau de domínio dos seus falantes, sob pena de uma crioulização, uma simplificação rotineira que, a longo prazo, poderá comprometer a existência do idioma tal qual o conhecemos.

3 de maio de 2017

IX Aniversário.


    O blogue perfaz nove anos. É surpreendente constatar a voracidade do tempo. Tenho a exacta noção de quando o criei, das circunstâncias que o motivaram. Não pretendo dissimular o orgulho que tenho neste espaço. Continua a ser a minha plataforma de eleição, não obstante não abdicar de outras mais imediatas. Na imperiosa necessidade de ter de tratar de determinado assunto, inclusive de índole pessoal, o blogue assume-se como a minha escolha.

     Gosto de escrever. O segredo de se ter um blogue de escrita, primordialmente, é gostar de escrever. A apetência, quando é natural, faz com a que escrita flua sem imposições. Escrever é-me um exercício de catarse, de exteriorização de opinião. É o meu veículo de contacto com o mundo, a minha janela para o que vejo e sinto. São nove anos. Não sou a mesma pessoa de 2008. Encaro o blogue com outra atitude, mais responsável, que cresceu comigo, acompanhando-me neste processo evolutivo.

     O blogue tem passado relativamente incólume ao estado de apatia da blogosfera. Creio que também se deve ao facto de, como já referi, escrever por prazer. Não me preocupa o impacto que terá nos leitores - claro está que todos gostamos de saber que somos lidos e que nos acompanham. Entretanto, quem publica determinado conteúdo com um olho no alcance que terá, facilmente desanima.

      Quanto a mim, não senti ainda o desânimo ou a falta de inspiração. O mundo fornece-nos tanta matéria interessante que só um idiota - aqui sem ânimo de ser pejorativo; no sentido de indiferente - não encontrará um estímulo. Há uma panóplia de temas e de áreas de interesse que abarca todas as preferências pessoais. O segundo segredo de manter um blogue é este: escrever, ou publicar, melhor, sem pensar muito no que virá. Mais ou menos como viver. Pegando nas palavras da senhora da pastelaria em que comprei o bolo de aniversário - o meu, que o blogue só terá direito a um no 10.º aniversário (risos) -  « não ter pressa, ir contando os anos, um por um ».

      Não me alongarei mais. Já são nove as publicações que assinalam os aniversários. Resta-me agradecer a todos quantos me seguem e acompanham. Também àqueles que me enviam e-mails tão simpáticos e encorajadores. Bem hajam todos!


lots of love,
Mark

29 de abril de 2017

April 29.


    Outro ano se passou. O calendário é testemunha. Neste aniversário, entretanto, não senti a aproximação do dia com angústia, não. Não fosse a mãe avisar-me e ter-me-ia esquecido de encomendar o bolo, discreto, sem floreados.

     São 15h. O pai ainda não me ligou. Não posso crer que se tenha esquecido, não, falamos todos os dias, ou quase todos os dias. Eu tenho a sensação de que são todos, porque quando conversamos sinto que lhe conheço os dias, assim como ele conhece os meus. Da avó, sua mãe, o telefone também não deu conta.

     Queria que os meus aniversários fossem diferentes. Não só os aniversários, a bem dizer. Sei que está nas minhas mãos mudar o destino, somos nós que o delineamos. Mas a vida assusta. Assusta vivê-la. Invejo, invejo aqueles que lhe vêem um encanto qualquer. Que dizem que é bela. O mal deve estar em mim, sim, mas não a vejo assim. Encaro-a mais como um fardo, amenizado por mansos instantes.

       Em contrapartida,  a imprevisibilidade deixa-nos na expectativa de um amanhã risonho. Quem sabe ele venha.

Actualização.: Poucos minutos após a publicação do post, recebi um telefonema do pai e da avó.

26 de abril de 2017

Dalida.


   « La vie m'est insupportable. Pardonnez moi »

   Foi com esta mensagem, deixada à cabeceira da cama, que Dalida, aos 54 anos de idade, se despedia da vida, do público e dos poucos íntimos que a acompanharam nos derradeiros meses. A sua carreira somava três décadas. Iolanda, de seu nome verdadeiro, nasceu no Egipto, sendo filha de imigrantes italianos. O pai, segundo o filme biográfico, foi preso e enviado para um campo sob a acusação de uma ligação perniciosa aos nazis. Quando regressou, era outro homem. Tornou-se violento consigo, com o irmão e a mãe. Foi o primeiro dos traumas de Dalida, talvez o que influiria decisivamente até à sua morte.

    Dalida passou por uma leva de sucessivas desilusões amorosas. Quis casar e ser mãe, « ser normal como as outras mulheres », quando o seu empresário, e futuro esposo, a via como um produto comercial. Constituir família, numa carreira em ascensão, poderia acarretar uma interrupção prolongada e, consequentemente, afastá-la do público. Com um mês de matrimónio, descobriu o amor nos braços de outro homem. Embarcou numa aventura que pouco durou, pois haveria de descobrir que Iolanda, a mulher, estava com a sua recente paixão assolapada, enquanto que Dalida, a artista, continuava a amar o marido.

     Os casos e descasos sucederam-se. Três dos homens com os quais se envolveu, incluindo o desditoso marido, haveriam de se suicidar. Dalida não trouxe a morte para si apenas. A beleza, a timidez e aquele jeito muito informal de ser, espontâneo, cativavam os homens, deixando-os desesperados na sua ausência. 
     Engravidou de um fã, um estudante de vinte e dois anos. Naquela que teria sido a oportunidade de ser feliz e de, finalmente, se afastar da ribalta com um rapaz que não a queria pela fama, faz um aborto, que mais tarde descobre que a impossibilitou de poder vir a ser mãe. Outra mágoa.
     Falece-lhe a mãe. Orlando, o irmão e quem geria a sua carreira nos últimos anos, vê a cantora e a actriz, mas não se apercebe dos sinais de exaustão física e psicológica de Dalida, que na década de 60 já havia tentado o suicídio. Finalmente, desiludida com as tragédias que se lhe abateram e sem esperança no futuro, tira a vida na sua casa de Paris.


     O filme é a história de Dalida, a artista extraordinária que marcou uma era na Europa com as suas canções populares românticas dos anos 50 e 60, e também na transição, mostrando a sua irreverência e versatilidade na disco, o que a levaria até aos EUA e a uma bem sucedida temporada no Carnegie Hall. Como a artista não se distingue da cantora, eu creio que houve um bom equilíbrio com a sua vida privada.
     A actriz que lhe dá corpo, Sveva Alviti, é uma mulher lindíssima - faz totalmente o meu género. Conseguiu recriar a Dalida sensual, mas frágil, extremamente carente de afectos, que todavia se transfigurava em palco e sacava do público ovações entusiastas. Profissionalíssima, Dalida nunca desapontava.

      O realizador procurou evitar tornar o filme num melodrama aborrecido e cliché. E bem. O filme é a Dalida. É a infelicidade. E a Dalida e a infelicidade caminharam juntas.

25 de abril de 2017

O 25 de Abril.


    Salvo erro, em 2013 e em 2016 não assinalei a data da Revolução. Está tudo dito, por mim e por todos. Já falámos do passado, do futuro, sobretudo em 2014, ano em que, por ocasião do quadragésimo aniversário, lhe dediquei uma extensa análise. Fará sentido, posto isto, evocar o 25 de Abril?  Acredito que sim, particularmente num ano em que assistimos a uma perigosa involução. A História repete-se, é cíclica. Regra geral, os intervalos temporais que medeiam as ideologias são maiores; por ora, quase que regressamos às primeiras décadas do século passado. Os discursos acesos e nacionalistas estão aí e convencem o eleitorado. Enquanto vos escrevo, os franceses decidem quem será o futuro Chefe de Estado. Pelo meio, Marine Le Pen, a líder da Frente Nacional, que embora não sendo a favorita, está bem posicionada, defrontando Emmanuel Macron na segunda volta.

    A Revolução de Abril de '74 foi ideológica. Fortemente marcada pelo marxismo. O país não conheceu a democracia, não sem antes passar por uma experiência insólita de tutela militar, até 1982, sob o manto de uma Constituição que enunciava direitos e deveres, também ela, como todas. Vincadamente socialista, da qual o preâmbulo é um remanescente histórico. O bom senso imperaria. O período 74 - 87 foi convulso. A adesão às Comunidades refrearia, definitivamente, a instabilidade política. Sucessivas revisões constitucionais, nomeadamente as duas primeiras (1982 e 1989), depurariam a Lei Fundamental.

     O povo português é tolerante. Salazar chamar-lhe-ia "o povo de brandos costumes". O Presidente do Conselho, em si, foi um pequeno ditador à portuguesa. Franco diria que a modéstia era o seu único defeito. Termos contornado a II Guerra Mundial, muito pelos esforços de Oliveira Salazar, fez-nos passar o século XX na pasmaceira. Posteriormente, não vivemos um Maio de '68. Sofremos reflexos. Acompanhávamos o que se passava na Europa à distância. A Europa assemelhava-se a uma realidade remota, a nós, isolados. A Revolução trouxe a libertação, não só a política; a social. Os costumes mudaram. A sexualidade aflorou. O povo saiu à rua. O ensino escolar foi efectivamente universalizado. Ler, escrever e contar não mais bastava.

     Conseguimos traçar um quadro fidedigno de quem éramos e de quem somos. Não só no espectro económico. Portugal conheceu um desenvolvimento significativo, já o sabemos. Falo-vos do povo, da nação portuguesa. Mudámos. Temos jovens qualificados, que consideramos intransigentes e mal-educados, sim, mas que são infinitamente mais cultos do que os seus avós. Aceitamos melhor a diferença. A televisão e a imprensa livre ajudaram-nos nessa transição entre país profundamente atrasado, em variadíssimos domínios, para membro da vanguardista Europa. Devemo-lo a Abril. Temos razão quando reivindicamos mais e quando cremos que quarenta anos dariam para um salto maior. Sim. Aí, entretanto, há a somar os intoleráveis índices de corrupção que temos e a podridão que perpassa a classe política.

      Só alguém desprovido de sentimento patriótico poria em causa a pertinência do golpe de Estado. Ou um saudosista, da velha guarda. Com todos os erros, e foram certamente muitos, Abril foi necessário. E foi benévolo. Contornámos uma guerra fratricida, evitámos um round two a outro autoritarismo, sabe-se lá se pior do que o primeiro, e desenvolvemos. Desenvolvemos. Muito. E eu não conheci o Portugal do Estado Novo, que mo fazem chegar através de testemunhos vivos.
      Viva Abril, Viva Portugal.

20 de abril de 2017

A tirania turca.


     É uma síndrome que percorre a Europa, não de uma ponta à outra, que Portugal tem-se sabido comportar condignamente, e damos uma lição à Europa dita civilizada. O extremismo recolhe poucos frutos no mais ocidental dos países do Velho Continente. Não conhecemos os discursos xenófobos, extremistas, que diabolizam minorias. Da Europa dita civilizada não faz parte a Turquia, que ainda é Europa, geograficamente, e que dirige a sua política externa para o ocidente. Aliado de primeira linha dos EUA, a Turquia é membro fundador da NATO, em 1949; do Conselho da Europa, no mesmo ano, e há perto de trinta anos acalenta o sonho de aderir à União Europeia. Em matéria de direitos humanos, o país retrocede, muito embora a abolição da pena de morte, num primeiro momento, tenha surgido como um sinal positivo que a Turquia parecia querer dar aos seus futuros parceiros.

      A Europa olha-a com desconfiança, e motivos não lhe faltam. Erdogan, o actual Chefe de Estado, sujeitou uma lei de revisão constitucional a plebiscito, por imperativo constitucional. O povo votou-a e fê-la aprovar. A partir de 2019, a Turquia, até então regida por um sistema parlamentar - em que o Governo depende do Parlamento -, tornar-se-á numa república presidencialista, ultrapresidencialista, eu diria, com um Presidente que acumulará os poderes legislativo, executivo e ainda terá a prerrogativa de nomear grande parte dos juízes dos tribunais superiores. O que teremos, em suma, será o fim da divisão tripartida de poderes e do sistema de checks and balances, em que os poderes se autocontrolam e autolimitam. A democracia sucumbiu aos devaneios autoritários de Erdogan. A Turquia, que contrastava com os demais países de maioria muçulmana pela sua relativa abertura, pelo Estado laico, pelo multipartidarismo, adensará a longa lista de Estados fanáticos.

     O país está dividido. Erdogan, que pede respeito pelo resultado, terá de lidar com a oposição, que não reconhece a vitória, já contestada e marcada por suspeitas de ilegalidade. Não me admiraria que o resultado do escrutínio tivesse sido obtido às custas de fraudes nas urnas. O Sim obteve pouco mais de 50 %. A sociedade turca está manifestamente dividida, e os poucos pontos percentuais que afastavam Erdogan do resultado que lhe seria favorável estão longe de convencer os analistas internacionais acerca da transparência no processo de contagem.

     Este retrocesso agudizará o preconceito ocidental contra o Islão. A Turquia é um ponto de passagem dos refugiados, lida há anos com revoltas na sua parcela do Curdistão. É frequentemente acusada de etnocídio do povo curdo.

      A adesão da Turquia à UE é improcedente. Não estão reunidas quaisquer condições. O regime turco demonstra rumar em sentido oposto aos princípios e aos valores que sustentam o bloco europeu. Bem assim, a deriva extremista na Turquia não auspicia nada de bom. Está em estado de emergência por um período indefinido, com sucessivas prorrogações. Há perseguições políticas. Pela sua importância estratégica e pela proximidade à Síria e ao Iraque, temo que o caos naquela região, tradicionalmente instável, aumente. A ventura de Erdogan será um estímulo aos populistas europeus que em breve enfrentarão a decisão popular. No ano de Trump e compinchas, nada me surpreende.

17 de abril de 2017

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?


   Uma tarde de Páscoa pouco convencional, diria eu à partida. Pelo contrário, a evidência contornou-me as suspeitas: sala cheia, um preço agradável por ser Dia Mundial da Voz (e domingo de Páscoa) e uma peça fantástica, adaptação do filme de 1966 com a magnífica Elizabeth Taylor.

    A peça - deixo o filme para que o vejam; eu vi-o há muitos anos num dos serões da RTP2 - trata de uma noite entre dois casais, o anfitrião e o convidado. Alexandra Lencastre e Diogo Infante são, respectivamente, Martha e George, um casal na meia-idade, de classe média-alta, que vive em permanente conflito. Martha é filha do reitor da universidade local; George, professor no departamento de História. Convencem-se de que melhor será destruir os vinte e três (ou dois) anos de casamento pejados de mentiras, de humilhações - de infidelidades - muito embora tenha havido amor entre eles (se é que deixou de haver por algum momento).

    A meio da madrugada, entre copos a mais, passa-se de tudo, sendo que Martha é o vértice do perigoso desafio que aceitam implicitamente. Martha domina George. O seu pai, omnipresente, surge sempre que é necessário diminuir o marido, mostrá-lo como um tipo omisso, inerte, que vive na sombra do sogro, influente e rico na região. A desavença entre ambos, naquela noite, depressa envolve o jovem casal convidado, Nick, professor do departamento de Biologia, e a fútil e imatura Honey. Fica evidente um conluio de interesses que os une, a George e a Martha, e a Nick e a Martha e a Honey. Eles aproximaram-se delas em busca de uma concretização pessoal qualquer, e no caso de Nick, julgando Honey grávida de um filho seu (verificar-se-ia que era verdade). George propõe um jogo, pondo a nu os pecados da mulher, do colega e da mulher do colega. Revela-se o passado, descobrem-se as fragilidades de cada um dos quatro. Às tantas, a verdade e a mentira ombreiam-se mutuamente.

    Um casamento de farsa necessita de um estímulo, e Martha e George encontram-no na fantasia. Ao alvorecer, a "morte" do filho enfraquece-os, era essa a ligação que tinham. Nick e Honey, interpretados por Lia Carvalho e por José Pimentão, saem com os primeiros raios de sol, apercebendo-se da fragilidade daquele vínculo sem afecto, cercado de inseguranças e de  segundas intenções.  Martha e George, entretanto, terminam num abraço de desalento, exaustos do confronto, órfãos da ilusão que haviam criado e meio que descrentes no dia seguinte.

    A peça e o filme são um retrato dos defeitos e dos vícios que nos acompanham. Da desilusão. Da raiva, da necessidade de afirmação no ataque reiterado. Da desordem sentimental, do desequilíbrio emocional, do histrionismo. Do oportunismo. Da carência afectiva. Da frustração, na incapacidade em superar o fracasso pessoal e profissional.

    Gostei particularmente do desempenho de Alexandra Lencastre. Esteve fenomenal. Afinal, parece-me que consegue fazer melhor do que aquelas novelas de cacaracá. Diogo Infante sente-se seguro em palco. A idade amadureceu-lhe o talento. Os jovens actores como que ainda se procuram no meio artístico, mas vi-os com interesse.

     A peça estará no Teatro da Trindade, no Chiado, até ao dia 11 de Junho, e bem vale a pena.

12 de abril de 2017

Caveman.


   Pegando no convite de dois amigos, esta terça conheceu uma pequena alteração. Gosto imenso de teatro. Sem embargo, o teatro envolve uma interacção dos actores com o público, seja na comédia ou no drama, inexistente no cinema. Já experimentei ir ao teatro sozinho e, bem como ao cinema, sinto um vazio, pelo que procuro evitar. Na medida em que a companhia nem sempre está disponível, acabo por passar largos meses sem assistir a uma peça.

   Fomos ao Villaret. A peça foi importada da Broadway, como tantas. Chama-se Caveman, ou, em português, o Homem das Cavernas. Em registo de monólogo, com a tónica inteiramente no humor, Jorge Mourato, de quem nem sou fã, aborda os estereótipos e todo o fosso que se estabeleceu entre o homem e a mulher, numa análise histórica, sociológica, mitológica e psicológica, através dos tempos, desde o início da humanidade até à actualidade. Sozinho em palco, tendo o dever de nos fazer rir, e com uns poucos utensílios ao dispor, Mourato provocou gargalhadas entusiastas do público.

    Não falamos de um humor requintado. Rimos dos nossos papéis, das mesquinhices do quotidiano, de em como o homem e a mulher são distintos. O mais interessante, a par da peça em si, foi perceber a reacção dos casais, sobretudo a do casal que se sentou imediatamente à minha frente. A cada constatação, anuíam, como que se revendo naquela atitude, naquela situação, naquele contexto em particular. É uma generalização, claro está. Assistimos cada vez mais à reversão de papéis, que se acentuou com a emancipação da mulher e com o consequente abandono da função de guardiã do lar. A sociedade actual já não é , porque ainda é em parte, aquela que Jorge Mourato expõe durante duas horas. É-o em larga medida, e acaba por sê-lo após certa idade, ou precisaremos de envelhecer para ter a noção de como mudámos. Milénios de modelos estabelecidos não se alteram como que num breve compasso de tempo.

    Não é só para casais, embora os tenha visto em abundância. Todos acabamos, de uma forma ou de outra, a ter de lidar com estes estereótipos, pelos nossos pais, pelos nossos amigos ou conhecidos. E, a dado momento, nós agimos assim amiudadas vezes, como se fôssemos um objecto de estudo, vendo-nos desde a perspectiva do actor.

     A peça esta em (re)exibição todas as terças-feiras, pelas 21h:30m.

10 de abril de 2017

A justiça portuguesa.


   Desde que terminei a licenciatura e deixei o mestrado num impasse, afastei-me um pouco dos meandros do Direito. Continuo a subscrever a minha revista jurídica, continuo a ler os artigos que lia, embora tenha deixado de lado, definitivamente ou não, a jurisprudência e os sites que visitava. De igual modo, os manuais e os códigos aguardam na prateleira, meio que desconhecendo o seu destino. Eu diria que os dias de esperança já lhes passaram diante.

    O universo da justiça, em Portugal, provoca o desânimo e a consternação. Agudizou-se sobremodo a promiscuidade entre procuradores e alguns órgãos de Comunicação Social. Os julgamentos sumários, a tabloidização dos processos, as reiteradas violações dos direitos das vítimas e dos arguidos levam-me ao descrédito. Os processos estão anos sob investigação, quando há muito os suspeitos já têm a sentença lida perante a opinião pública. Os procuradores extravasam as suas competências, investindo-se do papel de julgadores quando não o têm. O segredo de justiça é uma piada. Ninguém o respeita.

    O jurista, aquele que terminou a licenciatura, acarreta o preconceito de uma área de formação depreciada, regra geral. Será o advogado inescrupuloso que de tudo fará para ganhar as suas causas, aproveitar-se-á da política para vingar na vida, embarcará numa relação íntima com os OPC e os magistrados, e os governantes, para daí extrair vantagens pessoais. Poucos se lembram de que aquele ou aquela jovem poderá querer marcar a diferença, honrando a lei, o compromisso assumido perante a sua consciência, primeiramente, e a sociedade.

    Não estamos perante uma escolha fácil. Só a vocação e o amor ao Direito justificarão a aventura que é ser jurista num país que não respeita o Direito, que não dignifica a justiça e que não confia nas profissões que estejam directa ou indirectamente relacionadas ao Direito. Como o amor desde sempre me faltou, prefiro dedicar-me a outras áreas de interesse, que me dêem menos problemas e que me tragam uma maior concretização pessoal. E é aí que me encontro.

6 de abril de 2017

A Bela e o Monstro.


     Um clássico do renascimento da Disney. De entre eles, talvez aquele cuja mensagem, a dita lição de moral, ganha um significado acrescido: a beleza reside no interior, e nem sempre quem é mau, é-o irremediavelmente.

     Temo sempre estas adaptações. A maioria delas rouba a magia dos filmes de animação. Em primeiro lugar, porque o desenho animado permite uma liberdade de movimentos e uma fantasia que nós, humanos, representando com o corpo, não temos. Em segundo lugar, o desejo de inovar, de trazer algo de inédito, frequentemente descaracteriza a história. Foi o que aconteceu com o Maleficent, de 2014, que seria o prelúdio de A Bela Adormecida. Era um novíssimo argumento, muito válido, sim, mas quem compra o bilhete, na maior parte dos casos, quer mergulhar no universo Disney das suas memórias, sem perder o fio à meada e sem sentir que não há uma correspondência lógica com o filme que dá o mote à sequência.

      O objectivo foi alcançado, no meu entender. O filme manteve todo o encanto do original, superando-o em realismo, e mal seria se assim não fosse. As características de cada uma daquelas personagens reportaram-me de imediato à Bela, ao Monstro, ao Gastón e aos artefactos vivos. Os efeitos especiais, dignos de nota, num filme que é todo ele circundado de encantos, primaram pela qualidade. As poucas discrepâncias face ao original conjugaram-se bem no todo, foram-lhe um bom complemento.

      O Le Fou, o amigo e companheiro do Gastón, conheceu uma curiosa transformação. Se bem me recordo, tratava-se de um idiota, fraco de espírito, que acompanhava o vilão nas suas façanhas e crueldades. Nesta versão, tornou-se na primeira personagem homossexual de um filme da Disney. Embora caricaturado, é divertido. Nutre pelo violento Gastón um amor mal dissimulado, mas eu diria que são os trejeitos que o actor lhe imprimiu que melhor denunciam, por assim dizer, a sua orientação. A derradeira cena de Le Fou, no baile final, é deliciosamente provocadora.

      Gostei do desempenho pessoal da Emma Watson. A Bela era uma miúda doce, frágil, transfigurando-se numa heroína corajosa quando assim tinha de ser, e a actriz soube encarná-la sem descurar qualquer das facetas da Bela do filme de animação. Fisicamente, entretanto, presumia que a Bela fosse mais bela, com mais presença. A Emma ficou aquém desse protótipo físico que construí da Bela, ainda que nada mais lhe tenha a apontar, e cada um tem o corpo que Deus lhe deu.

      Se me colocassem na inevitabilidade de escolher entre o original e a adaptação, ficaria com o primeiro. Os motivos, entretanto, enunciei-os logo no parágrafo segundo. Perdeu-se, neste caminho tecnológico, uma simplicidade qualquer, insuprível por 3Ds. Ou a idade é outra e o problema está em mim.

      A quem gostou do original de 1991, esta versão é-lhe fiel na banda sonora, na caracterização, na narrativa e na densidade das personagens (na última, tanto quanto possível). Vale a pena ver.

30 de março de 2017

Os sessenta anos do(s) Tratado(s) de Roma.


    No dia 25 de Março de 1957, na capital italiana, seis países europeus assinavam os dois tratados institutivos da Comunidade Económica Europeia (CEE) e da Comunidade Europeia de Energia Atómica (CEEA ou EURÁTOMO). Os Tratados de Roma, como ficariam conhecidos, resultaram dos esforços conjuntos da França, da RFA, da Itália e dos países do BENELUX no sentido de se estabelecer um mercado comum geral, cujas regras seriam aplicáveis nos mais diversificados domínios da actividade económica. No que respeita à segunda, o objectivo vinha desde a criação da CECA, de 1951, tendo-se prosseguido na solidariedade sectorial no domínio específico da energia atómica. Centrar-me-ei na primeira, na CEE.

     Os dois tratados vieram no encalço do labor dos seis países europeus para a construção de um bloco sólido e solidário, procurando-se afastar definitivamente a espessa bruma em que a Europa mergulhou no pós-II Guerra Mundial. Do lado de lá do Atlântico, nos EUA, a administração estadunidense via com bom olhos a instituição de um verdadeiro novo estado, os Estados Unidos da Europa, que teria representatividade nas Nações Unidas. Harry Truman, Presidente dos EUA, fez saber que uma Europa unida e coesa era do agrado do aliado transatlântico. Não nos esqueçamos do contexto social e político que se vivia, no qual a Europa beneficiava de fundos estadunidenses para a sua reconstrução, que ficariam conhecidos pelo nome de Plano Marshall.

     O empenho dos EUA não era desinteressado. A recuperação económica da Europa assemelhava-se como bastante proveitosa ao mercado estadunidense, na perspectiva de se lucrar com as exportações. O fim do tradicional proteccionismo europeu representava uma oportunidade muito vantajosa para as empresas daquele país. Bem assim, os EUA também esperavam que a Europa pudesse, unida e próspera, assegurar a sua própria defesa, permitindo que se diminuísse o contingente militar estadunidense no Velho Continente e que se diminuíssem os gastos operacionais e financeiros com o pesado encargo que assumiram. Por último, e não menos importante, uma Europa forte resolveria o premente problema do enquadramento da Alemanha na nova ordem estabelecida e ajudaria a conter o expansionismo soviético.

      Não se pense que todo o processo que culminou na assinatura dos tratados - ao longo de dois anos, entre a Conferência de Messina, em Junho de 1955, e a assinatura propriamente dita - foi imune a temores. Os seis países receavam que se fracassasse uma vez mais, que todo o projecto saísse gorado. Houve momentos de tensão, designadamente quanto ao estatuto a atribuir aos territórios ultramarinos franceses, que como sabemos são muitos e estão espalhados um pouco por todo o mundo.

      Em 1969, na Cimeira de Haia, fica assente que o alargamento seria o próximo passo, e ele deu-se sucessivamente ao longo das décadas subsequentes. Temos 28 Estados-membros em 2017, e uma UE, emanada do Tratado de Maastricht, herdeira das comunidades.

      No ano em que o projecto europeu celebra o seu sexagésimo aniversário, e poucos dias depois, o Reino Unido, admitido em 1973, no primeiro alargamento, invoca o artigo que lhe permite desvincular-se da UE. Os 28 em breve passarão a 27, e o que todos temem é que não nos fiquemos por aqui. Os Estados-membros já se apressam em garantir as suas posições. França e Alemanha adequam legislações, Portugal, pela voz do governo, assedia as empresas que se deslocalizarão do Reino Unido. O bom domínio do inglês, verdadeiro idioma empresarial em Portugal, os baixos custos em mão-de-obra, a distância, curta, entre ambos os países e o facto muito notório de Portugal ser um destino de eleição para os súbditos de Elizabeth II são factores que decerto pesarão quando chegar o momento de as empresas tomarem uma decisão.

       A UE conhece os seus dias mais sombrios. Um aniversário simbólico com sabor amargo. E o pior poderá estar por vir se o Reino Unido for bem sucedido. A coabitação com a UE dar-se-á de um ou de outro jeito. Não acredito que a mão das instâncias europeias seja leve, porque seguramente terão de demonstrar firmeza na penalização aos britânicos. Nada poderá ficar igual. Se estão fora, estão fora. E haverá ressentimentos. Na Escócia, ressurge a inquietação. Às vezes, desconfio de que nem os britânicos sabem exactamente o que pensar. O país dividiu-se entre os eurocépticos e os euroconvictos. Eu estaria receoso. Ainda que o Reino Unido tenha laços privilegiados com várias nações, o futuro está num grau de incerteza maior do que aquele que por si só comporta. E pensar que há sessenta anos se comemorava.

26 de março de 2017

Mário Cesariny.


   Um génio, um louco. Pouco conhecimento tenho da obra de Mário Cesariny, a literária e a plástica. Foi, como todos os surrealistas, excêntrico, atrevido, incompreendido. O documentário a que assisti no CCB, esta tarde, contribuiu muito para me aproximar do seu legado. Julgo-o como um homem lúcido na sua transcendência. Não passou inerte pela vida. Observou, experienciou, pintou, escreveu, foi perseguido pela PIDE por ser assumidamente homossexual.

    Naqueles noventa minutos, a alma do homem criativo evadia-se do corpo raquítico. A idade é cruel. Soube, extra-documentário, que a inspiração de Cesariny aumentou nos últimos anos. Quando somos mais maduros, experientes pelos erros, perecemos. Cesariny orgulhava-se das suas múltiplas conquistas amorosas e do fracasso com as mulheres. O pai, austero, disciplinou severamente o filho (e as filhas), e as memórias que deixou não foram as melhores. Surpreendeu-me ver que Henriette, irmã de Cesariny, com quem partilhava a casa, diabolizava o pai, vaticinando-lhe o mais cruel dos castigos no outro mundo.

    Custava-lhe ver os amigos partir. Como dizia, « Lisboa morreu e não foi a enterrar ». A poesia não lhe chegava em casa, mas nos cafés, nas ruas. Teve um amor que o quis matar. Não matou. Escreveu para incautos marinheiros que aportavam na capital. Os brasileiros, dizia, eram os melhores. « Vem cá, minha flor. » A voz doce e o sotaque açucarado levavam-no na certa...

     No ocaso da vida, era um homem permanentemente de cigarro na mão, desgastado pelo tempo, sem muitas ilusões. Era cru nas suas convicções, dolorosamente assertivo e genuíno. Não precisava de um psiquiatra, « mas dum homem ». Não escrevia para enriquecer o editor, não pintava para que as galerias julgassem que conheciam a arte, que tinham qualquer coisinha de surrealismo exposta. Foi livre na sua criação, poeta de si mesmo. Culto.

      Gostava de voar, de sonhar que voava. De ser livre. De olhar no espelho e ver-se ao ver o outro. A sua singularidade sobreviveu-lhe na recordação de todos, e é na diferença que encontramos o nosso traço distintivo. Mortais são os iguais.


22 de março de 2017

Aquarius.


    As terças-feiras estão consagradas ao cinema. À partida, teria esgotado todos os filmes que me interessavam, mas Sónia Braga e este Aquarius prometiam um bom momento. O que sabia do filme não ia além de um trailer que vi noutra sessão. Ontem, entretanto, quando anunciei que assistiria ao Aquarius, um amigo brasileiro teceu-lhe duras críticas. A verdade é que ele é de direita, e à frente perceberão por que o digo. Acusou o filme de estar politizado, de ser «das esquerdas». Não sei se é de esquerda, de direita, da frente ou de trás, mas que é um grande filme, é, e só lamento ter-lhe dado ouvidos, ou o benefício da dúvida, porque refreou as minhas expectativas.

    Não irei falar muito da narrativa. Isso encontram em qualquer resenha, como dizem os amigos brasileiros. Irei focar-me no papel de Sónia Braga, que complementa a história, que também tem interesse dada que sua invulgaridade. Sónia Braga, aquela actriz paradigmática para os portugueses ("eu nasci assim, eu cresci assim..."), pode considerar a Clara como uma das suas maiores personagens. A menos que Sónia se supere em perfeição, é este papel que irei guardar na memória. E que papel! Desde os instantes em que se comove, aos que se irrita, aos que se sente no meio de um caos qualquer, lutando pelos seus direitos, Sónia é bela mulher de cabelos negros, sensual, que geme de prazer com um garotão de vinte e poucos anos e que passeia o neto nas ruas de Recife. Que conforta e ajuda os filhos, que aceita a diferença de um, que não cede ao conformismo de uma doença que não a matou e ainda menos lhe roubou a libido.

     Como a maioria dos filmes que escapa à lógica de Hollywood, Aquarius focaliza-se nos pequenos pormenores. Um copo de vinho, um álbum, um assomo ao piano. É um filme que se demora. Destaco a ambivalência tão presente no cinema brasileiro pelos contrastes sociais: o lado pobre, o menos pobre (a nova geração e a dos nossos pais), que convivem a paredes-meias. O toque retro está presente no início, de forma velada, e subtilmente ao longo das mais de duas horas. Passaram os Queen e o Roberto Carlos. Ou os 80s estão na moda ou nunca saíram de moda, pois raros são os filmes actuais que não dão uma passadinha por lá.

      E regresso ao início e a Sónia Braga, que arrebata a cena. Uma interpretação inenarrável, uma segurança e uma leveza que só a idade permitem. É uma senhora, e lá fora já jogou as suas cartas. Para mal dos nossos pecados, o filme, no Brasil, tem sido recebido com desconfiança. Respira-se política no país irmão, e não será só por lá. É uma caça às bruxas adaptada. Quem não está connosco, está contra nós. O filme aborda temáticas caras à esquerda: a igualdade, a afirmação feminista, um toque subtil nas minorias, ingredientes que, per se, não definem necessariamente um filme, tão-pouco anulam o mérito dos actores. Há que saber analisar racionalmente uma obra.

      Aconselho. Na senda da apreciação de um jornalista brasileiro, Reinaldo Azevedo, da revista Veja, « o dever das pessoas de bem é boicotar Aquarius », porque o filme é socialmente incorrecto, provocatório. Morde os calcanhares às senhoras que acompanham os seus maridos e que mal dissimulam a mão a tapar os olhos enquanto Sónia Braga escandaliza a moral, seja com o seu corpo, seja com as suas atitudes. A rever.

17 de março de 2017

A intolerância.


    O Tribunal de Justiça da UE, órgão jurisdicional da União Europeia, com competência sobre os Estados-membros, instituições e órgãos da União Europeia (não dirime conflitos entre particulares), proferiu uma sentença polémica que nos dá conta da não contrariedade ao direito se as empresas procurarem adoptar um padrão neutro, banindo os símbolos religiosos. Não tendo acesso à sentença, eu presumo que estivesse em causa o hijab, vulgo véu islâmico. Uma ou duas funcionárias, algures por essa Europa, teriam sido impedidas de usar esse símbolo religioso no local de trabalho. E o TJUE veio, agora, confirmar que não há discriminação directa se as empresas, e cito, proibirem o uso de  « um símbolo político, filosófico ou religioso ».

    Acompanhando a crescente susceptibilidade política e social, o poder judicial europeu não é imune ao circunstancialismo histórico e sociológico que vivemos na Europa e no resto do mundo. As posições agudizam-se, os partidos de extrema-direita procuram convencer o eleitorado de que a solução está numa campanha ofensiva contra o Islão, e as instâncias judiciais europeias nem sempre conseguem interpretar os valores que subjazem à Europa ideal, solidária, tolerante, inclusiva. São estes os valores que presidiram às comunidades, que mais tarde originariam a UE. Estávamos a viver um doloroso pós-guerra. A Europa estava destruída nas suas infraestruturas e ferida no seu orgulho. A França e a RFA procuraram unir esforços no sentido de se encontrar um ponto de convergência, de modo a que o continente recuperasse o seu esplendor. Foi um labor de todos. A vontade de que esta nova Europa vingasse era tal que Charles de Gaulle não quis que o Reino Unido participasse no processo de construção europeia (e hoje todos lhe dão razão...).

    A Europa é predominantemente cristã - houve quem quisesse incluir essa matriz no gorado projecto de Constituição Europeia. Mas temos uma Europa minoritária que é islâmica. A albanesa, a turca. E, no limite, temos cidadãos da UE, originários de estados-membros, que são islâmicos. Eu conheço alguns. Pessoas que têm a sua religião, que guardam os seus estatutos e preservam as suas regras, mas que contribuem para a riqueza do país, que nasceram por cá, que são tão portugueses como eu, mas que não são cristãos, e creio que é isso que se lhes não perdoa. Os Estados europeus são laicos ou confessionais, de maioria cristã. A desconfiança é milenar. Remonta às cruzadas, passando pelas campanhas dos reis católicos contra os turcos-otomanos, conhecendo certo refreamento quando entendemos, no ocidente, que o diálogo inter-religioso derramava menos sangue e aproveitava melhor a todos. Com os atentados que uma minoria tem provocado por todo o ocidente na última vintena de anos, o ódio recrudesceu, visando o cidadão médio que tem a sua vida organizada e que em nada está relacionado com esses grupos terroristas. Eu conheço muçulmanos que se insurgem contra o fanatismo jihadista.

     O hijab é um mero pretexto. Ao que assistimos, sim, é à crescente intolerância na Europa, quase recuperando a velha máxima bíblica, bem a propósito, da Lei de Talião. Estamos no caminho errado. É natural que as autoridades europeias procurem defender-se de atentados, mas temos de saber fazer a distinção entre extremistas, que os há em todas as religiões, e cidadãos comuns, porventura que professem o Islão, que estão plenamente integrados, e muitos dos quais até contactando de perto com o Cristianismo. Chamem-me irrealista, porque eu acredito que ambas as religiões, que partilham uma origem comum e os seus profetas, podem conviver pacificamente. Como ouvi por uma islâmica, "todos (os islâmicos) somos também cristãos". Uma afirmação simples, aparentemente superficial, mas que reúne em si a fórmula para a paz entre as nações cristãs e islâmicas.

     A decisão do TJUE deve ser bem interpretada. Compreendo que, em função da estratégia empresarial e da adequação à função, possam ser impostas restrições no que diz respeito aos símbolos religiosos. Numa loja de biquínis, por exemplo, não faria sentido que a funcionária envergasse um hijab. Devemos atender ao caso concreto, e não considerar que em qualquer situação, em qualquer contexto, seja legítimo impor aos funcionários que prescindam de determinados símbolos. Usar ou não o hijab pode comportar sofrimento para a mulher. Falamos da religião, e a religião diz respeito a um recôndito profundo de cada um, insondável, digno de respeito (o mesmo se aplicará às convicções políticas ou filosóficas, com a devida ressalva).

     Temo que a actual conjuntura permita que as entidades empregadoras reajam discricionariamente face a este precedente aberto pelo TJUE. O tribunal, contudo, é claro: exige-se que haja um regulamento interno que determine uma indumentária neutra aos funcionários. A questão está em saber até que ponto o hijab pode ser entendido como um símbolo, em primeiro lugar, e um símbolo que se desvie do âmbito da dita neutralidade, em segundo, e ainda podemos questionar-nos acerca do que é a neutralidade, por último. Prescindir do hijab será o mesmo que prescindir de um acessório estético qualquer? Parece-me que não. Entendendo, porém, que a neutralidade consistirá em manter todos os trabalhadores com a mesma aparência no que respeita ao traje, então, sim, não vejo discriminação. A deliberação do TJUE abarca os símbolos em geral, independentemente da religião.

     Da minha parte, um hijab, bem com um crucifixo, ou outro símbolo qualquer, a menos que estejamos diante de circunstâncias muito específicas (como a do biquíni), não afecta a produtividade da empresa, nem a eficiência ou a capacidade do/a trabalhador/a. O seu uso deve ser livre. Uma empresa que preze o bem-estar dos seus funcionários e a inclusão, porque é também isso que está em causa, deixa em cada um a decisão, em consciência, de se apresentar ou não com símbolos religiosos, intervindo na medida em que isso possa lesar os seus interesses.