17 de agosto de 2017

Madre Paula.


   A RTP decidiu-se a apresentar uma série histórica baseada em obra homónima. Madre Paula vem colmatar uma sentida lacuna. Por um lado, estimula o interesse dos portugueses pela sua história, tão subestimada, sobretudo numa era em que as ciências exactas dominam; pelo outro, é mais uma aposta na ficção nacional de qualidade.

    Tomei conhecimento da série com enorme entusiasmo, ou não fosse aquele período - inícios e meados do século XVIII - um dos meus favoritos, junto a D. João V, o meu monarca de eleição. A vida íntima do monarca é conhecida; a sua predilecção por monjas, as suas visitas recorrentes ao Mosteiro de Odivelas, onde se entregava ao pecado. D. João V foi o que poderíamos designar de imoral. A devassidão, a corrupção e os excessos de todo o tipo pautaram o seu longevo reinado. As remessas de ouro brasileiro permitiram-lhe levar uma vida de fausto e ostentação, havendo a registar que os cofres do reino estavam depauperados aquando da sua morte, em 1750.

     Madre Paula, ou Paula Teresa da Silva e Almeida, foi uma das noviças que caíram nas boas graças do Rei. Soube insinuar-se, soube afastar os rivais do seu caminho e depressa chegou a favorita de D. João V. Na série, interpretada por Joana Ribeiro, é uma rapariga ambiciosa, pouco clemente, que não hesita em interceder junto d'El-Rei para obter benefícios pessoais. A actriz, quanto a mim uma ilustre desconhecida, vem tendo um desempenho acima da média, bastante convincente. Não tinha a Madre Soror Paula por tão franzina, sendo bem verdade que jamais li qualquer descrição física a seu respeito. Paulo Pires, esse sim consagrado, dá corpo ao Magnânimo, e consegue fazê-lo com maestria. No tocante às interpretações, a série é uma mais-valia. Uma palavra também para Sandra Faleiro, esplêndida enquanto a austríaca D. Maria Ana, a Rainha inconformada com as infidelidades conjugais do marido.

      D. Francisco de Bragança é outra das personagens de Madre Paula. Acreditando eu que o grande público o desconhecesse, eu conhecia-o de leituras que fiz. Era um homem de péssima índole, e acalentava o sonho de destronar o irmão, tal qual o pai, D. Pedro II, o mui alto e mui poderoso, fez com o irmão, seu tio, o incapaz D. Afonso VI. Este enredo alternativo, se tanto até ao momento, sétimo episódio, aguçou-me a vontade de não perder um único episódio.

     A RTP foi audaz em incluir a relação homoafectiva entre um clérigo, o confessor do monarca, e um nobre. A série em si é uma prova de coragem para aquele horário. Contém cenas de forte teor sexual, bem explícitas. Será tudo menos um programa familiar das noites de quarta-feira.

     A par da valorização da nossa história e de se tratar de uma produção nacional, a série contribui decisivamente para um melhor conhecimento do século XVIII português, quais os seus rostos e superstições, o que pensavam, o que faziam, a que vícios se entregavam. A caracterização, os cenários e os figurinos ajudam-nos a que nos ambientemos à sociedade portuguesa de há trezentos anos. O que ressalta da série, no imediato, como referi de início, é a degeneração das instituições, quer políticas, quer religiosas, a promiscuidade entre elas, normalíssimo no auge do absolutismo régio. A Corte era, com efeito, um antro de perdição e de crendice, e D. João V até foi, não obstante a sua esmeradíssima devoção, um monarca sensível a avanços científicos, parcos naqueles tempos. A imagem de fanático religioso deve ser contrabalançada com a de monarca prudente. Se pecou, pecou na companhia do povo, instituindo, não raras vezes, dias de folga para que todos pudessem assistir ao aparato das suas cerimónias.

     Temos uma história riquíssima. A RTP e outras emissoras podem e devem apostar em ficção semelhante. Poderia elencar um sem-número de factos, dos nossos perto de novecentos anos, que dariam séries de inegável interesse. Deixo-o à sensibilidade de quem de direito. Agradeço, agradecemos, mais Madres Paulas.

14 de agosto de 2017

Holidays. [2]


    Regressei a Lisboa. A semana passou num piscar d'olhos. Foi, todavia, bastante retemperante. Rumei ao sul, como havia dito, e a vontade de assentar foi tal que contornei a habitual visita à Andaluzia espanhola.
    Vilamoura é uma localidade fantástica, inserida na freguesia de Quarteira, no concelho de Loulé. Vocacionada inteiramente para o turismo de Verão, a oferta é apreciável. Sempre gostei mais de piscina do que de praia, daí que tenha optado por fazer piscina de manhã cedo e praia ao final da tarde, bem ao entardecer.

    A vida nocturna de Vilamoura é, a par do mar, do que mais gosto. Comércio aberto até de madrugada, pessoas a passear pela marina. Multidões ordeiras, diga-se. Apanhei dias e noites extremamente agradáveis, muito embora tenha arrefecido em pelo menos numa das noites, justamente aquela que escolhi para percorrer o passadiço da Praia da Rocha Baixinha. Também a restauração é de excelência, com preços, em alguns casos, exorbitantes. Já se sabe, paga-se a reputação. Fui a duas discotecas, ao Bliss e ao Seven. Grupos de jovens distribuem pulseiras pela vila. A pulseira torna-nos em guests. Os guests têm uma entrada excepcionalmente reduzida, comparando à entrada normal, que ronda as duas centenas de euros. Nada como aproveitar, até porque nem todos são contemplados com as ditas pulseiras multicores. Não gostei. Não gosto de discotecas e nem da música que passavam. Tão-pouco dos artistas convidados. A parte boa é que têm espaços ao ar livre no recinto, evitando assim, no meu caso, os decibéis assustadores. Vi por lá, a propósito, dois ex-colegas da faculdade: um, num dos espaços de animação nocturna; outro, na marina, à noitinha.

    Pude presenciar o pôr-do-sol na praia. Sentado à beira da rebentação, sentindo o calor dos derradeiros raios. A paz e a tranquilidade foram-me totais. Deixei os aborrecimentos por cá; as desilusões da primeira metade do ano, os sentimentos espúrios, e os risíveis, e as mesquinhices que me acompanharam por tempo excessivo. O meu problema, que venho aprendendo a contornar, é o de me apoquentar com pessoas e com situações absolutamente insignificantes para a minha vida e para o meu bem-estar. Gente que nada me acrescenta, muito pelo contrário. Alguém como eu não se deve dedicar a assuntos menores. Página viradíssima.

    Talvez, não sendo seguro, possa voltar ainda este mês para mais uns dias.
    Captei vários momentos. Deixo-vos um deles, na marina. Quem me acompanha noutras plataformas tem acesso ao meu acervo das miniférias.



6 de agosto de 2017

Holidays.


   E lá irei eu uns dias para a província mais meridional de Portugal Continental. Não que seja fanático por praia, mas gosto. Gosto ainda mais de fazer piscina, e felizmente tê-la-ei à disposição. Aguarda-me uma novidade - uma ansiada alteração na rotina - para Setembro, pelo que estes dias dar-me-ão, assim espero, outro fulgor para a rentrée. A seu tempo, por-vos-ei a par de tudo. Por ora, repousar e pouco pensar.

   
See you soon,
Mark


4 de agosto de 2017

Venezuela.


   A Venezuela vive tempos conturbados. Desde que Chávez faleceu, o mentor da Revolução Bolivariana, e de que Maduro assumiu o poder, que a situação no país se deteriorou. O último episódio da interminável novela prende-se à eleição para uma Assembleia Constituinte que terá poderes para elaborar uma nova Lei Fundamental. Esse acto eleitoral não foi reconhecido pela comunidade internacional, não só, mas também, por suspeitas de fraude. O que Maduro pretende, em verdade, é perpetuar-se e à sua ideologia, limitar os poderes do Ministério Público venezuelano e silenciar a oposição. Tem havido uma campanha suja, difamatória, para se equiparar a oposição a Maduro, por parte de apoiantes do presidente venezuelano, quando não fazê-la passar por uma quadrilha. Maduro conta com o suporte de vários esquerdistas radicais, designadamente, em Portugal, do PCP.

    A posição de Portugal tem sido a de se procurar um consenso com os parceiros europeus sem, contudo, lesar os interesses dos cerca de quinhentos mil portugueses e luso-descendentes que residem naquele país do continente sul-americano. Compreendo as reservas do Governo. Acautelar a segurança dos cidadãos nacionais é uma prioridade. Portugal não pode entregar nas mãos de Bruxelas toda a sua política externa. Somos um país de emigrantes. Temos de contar com represálias aos portugueses se o Governo se manifestar contundentemente contra Maduro. Demos, todavia, um passo acertado, no meu entendimento, ao nos termos posicionado contra a eleição para a Constituinte.

    Temo que o país siga um caminho dramático de guerra civil. Para lá se encaminha. Nesta matéria muito sensível, temos de ter a sensibilidade de pôr de parte as diferenças políticas. O regime de Maduro é atroz, é tirânico. As simpatias ou antipatias com os EUA não devem condicionar o nosso humanismo. Falamos de uma ditadura. Falamos de um homem que pretende subverter a Constituição e a democracia aos seus ditames. O povo venezuelano merece-nos o respeito e a solidariedade nestes momentos particularmente delicados. Também lutámos pelo estabelecimento de uma ordem democrática e respeitadora dos direitos humanos, muito embora vivamos há décadas em democracia e esses nos pareçam ser valores seguros, adquiridos.

     Não sei até que ponto o eventual embargo económico / petrolífero possa prejudicar Maduro. Vejo as sanções como mais um castigo sobre o povo venezuelano. Uma intervenção armada também seria um acto hostil desmedido e precipitado - e imprudente - na medida em que o intervencionismo externo, máxime no Médio Oriente, produziu o caos social, superlativo ao que se viverá, direi eu, na Venezuela. O que me é garantido, sim, é que não podemos encarar esta eleição como um acto de soberania legítimo, reagindo apática e indiferentemente à agonia dos venezuelanos, correndo ainda o risco de ver Maduro exportar o seu modelo para os vizinhos. O Brasil terá eleições em 2018. Lula espreita o poder.

1 de agosto de 2017

Dias Difíceis.


    Desde que o Governo assumiu funções que não se havia deparado com tamanhas polémicas desestabilizadoras da solução governativa alcançada. O mais caricato é que há maior demérito do Governo do que mérito da oposição. Antes de começar, quero deixar claro que tenho sido, e continuo a sê-lo, um apoiante do Governo e da aliança à esquerda; todavia, sou independente e fiel apenas à minha consciência.

    O PS não soube lidar com a tragédia de Pedrógão e com o furto de Tancos. Houve desautorizações, falta de liderança. Os ministros com as respectivas tutelas disfarçaram mal o desnorte, e ficou evidente que, quer num e quer noutro caso, houve indolência do Governo, para ser simpático. Falharam as redes de informação interna, falhou a segurança nos paióis. Reuniões, que por lei são obrigatórias, deixaram de ter lugar... Em ambas as situações, o Governo viu-se fragilizado. António Costa, até então tão seguro, procurou contornar as polémicas, mas parece-nos evidente que este governo não é o governo do início do mês de Junho.

    Entretanto, do lado da oposição deparamo-nos com o seu maior partido, o PSD, sem rumo e orientação política, refém das autárquicas, direi eu, para substituir o presidente. O acólito CDS, através da sua líder, tem-se saído melhor. Pedro Passos Coelho deu um tiro no pé ao levantar suspeitas sobre o número de mortos, os alegados suicídios. A imprudência veio-se a confirmar. E a actuação do Governo tem sido profícua em casos: as viagens de Secretários de Estado, as máfias das matrículas escolares em Lisboa (o Ministério da Educação tem algo a dizer), a CGD, o SIRESP... Só a desorientação da oposição justifica que, entre tanto caso problemático, nada tenha resultado daqui, nenhuma consequência política ao Governo - falo-vos de uma moção de censura. Provavelmente tê-la-ão guardado para um momento (ainda mais) oportuno.


    Da parte do outro agente político, o Presidente da República, deu-se um afastamento face ao Governo, uma dissonância ainda tímida. Enquanto Comandante Supremo das Forças Armadas, Marcelo Rebelo de Sousa, e compreensivelmente, sentiu um certo desconforto. Visitou os paióis, foi ao « limite dos poderes ». Na altura, e quando escrevi sobre o assunto (uma das minhas últimas crónicas), critiquei-o pela apatia. Ora bem, a sintonia já não é total. Sucedem-se os recados políticos - e um Presidente deve-os à nação - e pairou, pelo menos na entrevista concedida ao Diário de Notícias, a hipótese da "bomba atómica". Falou-se nela. Falar-se nela já indicia algo. O Presidente da República foi claríssimo, no meu entender, quando aludiu à demora dos seus antecessores em dissolver a Assembleia, procurando evitá-la, vendo-se obrigados a fazê-lo, ou seja, Marcelo não hesitará em dar uso aos poderes que a Constituição lhe confere quando sentir que o actual consenso governativo se esgotou.

      Se tanto na política, o Verão tem sido bem quente. Não tivemos ainda semanas mortas. Em Setembro ouviremos falar muito nas autárquicas, que têm, em Portugal, uma interpretação política clara: há partidos vencedores e vencidos. Todos estão à espera do resultado das autárquicas para definir o futuro.
      O Governo atravessa o turbilhão. Está sob a tempestade, esperando que ela passe provocando os menores danos possíveis à credibilidade e à reputação do executivo. Os próximos tempos ditarão o nosso futuro a médio prazo.

26 de julho de 2017

A discriminação sexual nos tribunais nacionais.


   Uma cidadã portuguesa viu o seu pleito decidido favoravelmente pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Estava em causa uma decisão judicial do Supremo Tribunal Administrativo, que havia reduzido a indemnização fixada anteriormente num caso de negligência médica. A fundamentação provocou enorme alarido, pois aquela instância judicial arrogou-se o direito de dispor sobre as idades da sexualidade humana, considerando que, aos cinquenta anos, o sexo não desempenha o mesmo papel.

    Desde logo, pareceu-nos mais um caso de sexismo nos tribunais portugueses, um entre tantos. Assim entendeu o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. A discriminação em função do género tem um longo historial na jurisprudência portuguesa; é particularmente notória nos casos de abuso sexual, numa tendência que vem diminuindo, sim, acompanhando a evolução natural que se efectivou na sociedade portuguesa, todavia ainda presente.

    Há uma tendência quase irresistível nos magistrados portugueses para, em tom paternalista, distinguir entre o homem e a mulher, as necessidades de uns e de outros. Não raras vezes o homem é representado como aquele que age por instinto, por natural avidez sexual, e a mulher, a vítima, como o agente sedutor que despoletou, por assim dizer, uma reacção incontrolável no macho latino.

    No seio do matrimónio, o sexo é entendido, pelos tribunais portugueses, como um dos deveres conjugais, que não o é (ou não o devia ser). A recusa de um cônjuge em manter relações sexuais está na esfera do seu direito a fruir livremente da sexualidade, e isso contempla ter ou não ter relações sexuais. Casar não nos vincula, per se, ao dever de ter sexo para suprir as necessidades do esposo ou da esposa. O sexo faz parte, mas não é uma obrigação e nem nos pode ser exigido.

    Os magistrados são homens e mulheres. A sociedade em que estão inseridos não lhes é indiferente. Fazem a sua interpretação da lei, que assenta, queiramos ou não, nos seus preconceitos. Transportam-nos para o tribunal, causando-nos maior perplexidade ao termos conhecimento de magistradas que, pela imparcialidade, se esquecem da sua condição de mulheres quando se vêem em mãos com casos que envolvem vítimas do sexo feminino.

     O que se pretende é que o homem e a mulher, para efeitos de apreciação judicial, sejam iguais. A cidadã que viu o Supremo Tribunal Administrativo considerar que, por ser mãe e ter aquela idade, o sexo não lhe seria tão importante, pode estar segura, porque eu estou, de que outro entendimento teria aquele órgão judicial se as lesões infligidas tivessem ocorrido num homem. O tribunal entendeu que a mulher, deixando de ser fértil ou porque já gozou das maravilhas da maternidade, deixa de atribuir ao sexo a importância que este assume, entendendo-se, então, que a relação sexual visa a procriação somente. Para os tribunais portugueses, mui sucintamente, o sexo é um dever conjugal e tem como objectivo a perpetuação da espécie. É assim que estamos.

     O TEDH condenou o Estado português, numa decisão que louvo. Não podemos continuar a tolerar e a condescender com estes preconceitos enraizados, inclusive entre os magistrados. Os tribunais não devem substituir-se à nossa consciência do justo e do injusto, e tudo isto, a qualquer cidadão minimamente razoável, assemelha-se a um rol de aberrações jurídicas.

24 de julho de 2017

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   Recordo-me de que era costumeiro falar-se na silly season da blogosfera. Também ela cedia à apatia do Verão, ao afastamento expectável quando as pessoas gozam das suas merecidas férias. Só que a blogosfera foi de férias e não mais regressou, como aquela loja de variedades do lado esquerdo de quem vai para Santa Apolónia. Está lá o papel afixado na porta, sujo, amarelecido, "encerrado para férias". Até hoje.

    A blogosfera que resiste, o reduto, é uma feira de vaidades e de compadrios. Aquela em que desde sempre me inseri, em abono da verdade, com alguma excepção pontual, nunca foi erudita por aí além. Eu, entretanto, e como me recordo de o ter dito, não faço distinção. Atento mais nos autores do que nos blogues, ou seja, o sentimento que me ligava a determinado autor fazia com que me interessasse pelo seu espaço. Às vezes, ria-me dos disparates, e ria-me inclusive da minha persistência em ler o que pouco me enriquecia.

     Até esses se foram, ou vêm esporadicamente. O facebook, que se foi impondo gradualmente, deu uma machadada em todas as redes sociais, e o Blogger não lhe foi imune. Por lá, muito embora a liberdade de expressão, inclusive a artística, possa estar condicionada, permite-se o mesmo. Textos, fotos, gifs, vídeos, com uma interactividade única e uma capacidade de reagirmos no imediato e de termos reacções ao que publicamos. Não há forma de o contornar. Aceitemo-lo.

     Pois bem, não que me tenha rendido ao facebook, de todo, embora o utilize, e cada vez mais, começo a pôr em causa o blogue - o que jamais havia feito. Os nove anos dão-me alguma autoridade e até, diria mais, à-vontade para colocar tudo nestes termos. Se o blogue era como que garantido, agora não o encaro assim. A vontade de continuar vai-se desvanecendo. Não pelas reacções às minhas publicações, antes que alguém assuma esta publicação como que um grito de revolta ou uma chamada de atenção; nunca fui popular, nunca escrevi a pensar nas pessoas que me leriam. No auge da blogosfera que conheci, escrevia sobre o que me apetecia, quando me teria sido mais fácil ceder ao populismo. Questiono-me sobre se fará sentido continuar porque pouco me demoro aqui, deixei de ler blogues, perdi o hábito de comentar (aliás, não sei o que ou quem comentar), logo, as minhas dúvidas são inteiramente pertinentes. Acresce uma certa desvirtualização, materialização do virtual, facilmente contornável, diga-se, assim o queira, em que me vi arrolado, e que, hoje, friamente, vejo que foi uma opção errada e até meio ingénua da minha parte.

      Não, não é uma despedida, o blogue vai continuar. E nem publicaria despedidas. Não tenho, em rigor, ninguém que o mereça, a par de escassos leitores. Escrever, como também venho deixando claro, quer em posts de aniversários, quer pontualmente, é-me uma necessidade. Gosto e, mais, preciso de o fazer, aqui. Como também precisei deste desabafo. Tal como, de 2008 a 2010, não seguia qualquer blogue e também não era acompanhado ou lido, é provável que torne este exercício de escrita ainda mais solitário, e que me encerre sobre mim mesmo. Chamemos-lhe uma reestruturação, ou de um outro modo de encarar um espaço que cultivo com carinho e que, independentemente de fases, me merece respeito.

17 de julho de 2017

A Tomada da Bastilha e a Revolução de 1789 (parte I).


    Há dias, noutra plataforma, assinalei mais um aniversário sobre o 14 de Julho, dia nacional em França, feriado, e data de relevo por todo o mundo ocidental. Vindo ao blogue, reparei que jamais havia dedicado uma publicação à Revolução Francesa. Abordei-a pontualmente, a propósito de outros temas. Nove anos parece-me demasiado tempo omitindo um facto histórico de tamanha projecção, com repercussões na história de Portugal, inclusive. Por questões logísticas, e porque a matéria exigiria um aprofundamento que não se coaduna com um blogue, dividirei o artigo - num inédito - em duas publicações. Na actual, tratarei do contexto social e político em França nas vésperas da Revolução; num segundo, focar-me-ei na Revolução em si até à primeira Lei Fundamental, a Constituição de 1791. Não irei além, à queda de Napoleão - o que certos autores consideram ser o fim da Revolução - porque envolveria um esforço que me parece desajustado e excessivo.


    Vivia-se um período de profunda convulsão social em França, agravado pelo descontentamento com os impostos e pelas débeis finanças. No aspecto político, o país apresentava as seguintes características: a Corte, em primeiro lugar, onde se encontrava a nobreza; os parlements, uma espécie de tribunais; uma administração central representada pelos intendentes dos departamentos; uma colossal dívida pública e uma carga fiscal avassaladora. No alvor do Estado absolutista, a Coroa procurou diminuir o poder da grande nobreza, transferindo-o para Versailles, bem como às funções fulcrais do Estado. Todavia, os nobres não viram com bons olhos esta diminuição da sua influência. Procuraram impor-se, sobretudo por via dos ditos parlements, que não eram verdadeiros parlamentos, no sentido de assembleias legislativas, que desde o dealbar do século XVII não haviam sido convocadas, mas eram, sim, tribunais regionais que, a par de administrar a justiça, zelavam pela ordem e tranquilidade públicas em uníssono com as ordenanças reais. Estes parlamentos, que existiam em todas as circunscrições, sendo que o de Paris sobressaía, eram liderados pelos nobres, que exigiam aos seus membros um diploma de jurisprudência superior. Digamos que seria um género de nobreza de toga.  Dada a existência destes órgãos compostos por uma elite versada em Direito, nobreza e terceiro estado tinham ao seu dispor um meio, porém desigual, que lhes permitia condicionar o poder do rei e dos seus validos.

     A administração regional, que estava subordinada à Coroa, com um intendente à frente, tinha um exercício nobilitado. A nobreza gozava praticamente de isenção de impostos. A maior parcela das contribuições vinha dos agricultores, dos artesãos e dos comerciantes, que, contudo, era insuficiente para cobrir as despesas do Estado. Das receitas obtidas, uma boa parte era destinada a amortecer a dívida e os seus juros, enquanto que a remanescente era utilizada para financiar os frequentes conflitos bélicos. Os ministros do rei, Turgot (de 1744 a 1766), Necker (1777 a 1781) e Calonne, derradeiramente, foram alvos permanentes dos parlamentos da aristocracia e da nobreza de toga. Os dois primeiros tiveram pouca sorte no desempenho das suas funções governativas. Calonne, entretanto, propôs um amplo programa de reformas, o que já Turgot propusera, nomeadamente tornar a administração menos burocrática, abolir os privilégios tributários, nivelar os impostos entre as camadas da população e incentivar a produção. Adivinhando a oposição dos parlamentos, Calonne decidiu submeter o seu vasto programa à aprovação dos Estados Gerais, que não reuniam desde 1614. Por escassez de tempo e porque era necessário agir depressa dada a multiplicação da dívida pública pelos esforços de guerra, convocou-se uma assembleia de notáveis em 1787. Esta assembleia, composta pela nobreza e por alguns membros do terceiro estado, ainda que de início se mostrasse disposta a aceitar alguns pontos da reforma, depressa se declarou incompetente. Calonne viu-se afastado e tudo equivaleu a uma derrota política do monarca, Luís XVI, rei desde 1774, e de toda a sua corte.

     A situação agudizou-se. O rei, reagindo, ordenou prisões e desterros, e a 17 de Maio de 1788 cerceou o poder dos parlamentos. Difundiu-se, pelo reino, uma agitação contra o monarca e a sua corte. De Maio de 1788 a Setembro,  surgiram centenas de libelos a atacar as decisões despóticas de Luís XVI. Houve confrontos nas províncias. Os parlamentos provinciais  exigiram a convocação célere de Estados Gerais; por sua vez, a nobreza e o clero reduziram as suas contribuições para o tesouro, que ficou mais depauperado. Luís XVI viu-se, então, perante o "levantamento da nobreza", obrigado a revogar as Leis de Maio e a convocar os Estados Gerais para Maio do ano seguinte. Contudo, o processo revolucionário era intravável. A dívida pública avolumava-se, o que provocou uma inflacção galopante. As condições meteorológicas também jogaram desfavoravelmente ao monarca, pois os Invernos de 1787 e de 1789 foram particularmente severos para as colheitas. A indústria estagnou, os motins tornaram-se frequentes. O golpe de Estado espreitava.

12 de julho de 2017

Tom of Finland.


    Interrompi as minhas terças dedicadas ao cinema porque nenhum filme em cartaz me entusiasmou, até que soube da estreia de Tom of Finland, no dia 6. Não conhecia o artista, sendo um filme biográfico, mas gostei da sinopse, e decidi-me logo a reservar o dia de ontem.

    Por curioso que seja, jamais ouvira falar de Touko Laaksonen. Não posso afirmar que nunca me tenha deparado com quaisquer dos seus desenhos. São conhecidos. Entretanto, e talvez por não se tratar de uma arte que me merecesse mais aprofundamento, atribuí-os à cultura massificada da pop art. Julguei-os um tanto ou quanto kitsch. Estava enganado, na medida em que o trabalho de Touko despontou logo após a sua participação nas fileiras da Finlândia na II Guerra Mundial, a julgar pelo filme biográfico. A residir com a irmã, Touko expressou no papel o desejo que o consumia, mas que não se esforçava por reprimir. As suas incursões em jardins públicos nocturnos e em bares alternativos revelam um homem aventureiro, já bastante seguro da sua condição de homossexual, e com uma libido que o levava a arriscar-se à condenação social e à forte repressão policial.

    Não foi na Europa que se tornou conhecido. Também na Alemanha, país no qual passou uma temporada, Touko passou por peripécias e por alguns constrangimentos só resolvidos através dos contactos que fizera enquanto militar. As experiências homossexuais vinham desde as trincheiras. Oficiais envolviam-se em momentos de êxtase pela noite, protegidos por árvores e arbustos. Um deles, seu superior, haveria de encontrar em Berlim como cônsul da Finlândia. De regresso ao país-natal, participou em festas homossexuais na casa desse diplomata, sob o olhar complacente da mulher deste último. Uma delas terminou abruptamente com uma denúncia feita à polícia e com várias detenções. O diplomata, afastado da carreira, foi compulsivamente internado numa clínica de reabilitação para curar-se do mal que o afligia, diga-se, da sua preferência por homens.

    Como referi, foi nos EUA que a obra de Touko, já enquanto Tom, pseudónimo que escolheu para se proteger, que viria a ter o acréscimo de of Finland dado por um correspondente americano, se popularizou, principalmente entre a emergente comunidade homossexual de Los Angeles e de São Francisco. Os seus desenhos tornaram-se tão conhecidos que todos queriam vê-los, queriam saber quem estava por detrás daquelas representações homoeróticas controversas. A fama levou-o a várias viagens à Califórnia. O companheiro, que havia conhecido décadas antes, e cujo amor disputou com a irmã, morreu de cancro da garganta no meio deste zénite de reconhecimento. Para Tom, a década de 70 trouxe-lhe as exposições, o dinheiro, mas a década de 80, com o surgimento da misteriosa epidemia que atingia os homossexuais, conduzi-lo-ia de novo à ostracização e aos ambientes segregacionistas. A sociedade culpava os seus desenhos de serem um estímulo às práticas nocivas que propagavam o vírus. Viu morrer amigos, conhecidos. Dez anos depois, em 1991, um enfisema provocou-lhe a morte. Os desenhos sobreviveram-lhe.

     O filme tem interesse. Julgo que lhe terá faltado um pouco de emotividade na parte final, que é tristíssima. De igual modo, senti alguma ausência de carisma por parte dos actores. Se há filmes que são salvos pelas interpretações, eu creio que neste caso foi a história que encobriu alguma desatenção dos actores. Há cenas mais sensíveis, muito cabedal, troncos desnudos, homoerotismo do primeiro ao último momento. Torna-se interessante constatar que o filme começa com um ambiente de profunda repressão para terminar nos loucos anos 80, que vieram permitir dar azo a todo o tipo de fantasias. A comunidade homossexual entregou-se a excessos, e Tom, aí, foi igualmente precursor, pois a última fase da sua obra evidenciava um cuidado em retratar aqueles motoqueiros viris com preservativos, numa mensagem clara para que a comunidade se protegesse da epidemia.

      Aconselho a quem se interessa por estes meandros, muito embora haja pouco de inédito; só as vivências do protagonista, por se tratar de uma biografia. Muitos filmes abordam o submundo dos encontros fortuitos entre homens, os anos iniciais da epidemia de HIV, logo, aí terão quase que uma repetição do que já foi sobejamente explorado pela indústria cinematográfica. Mas não perdem nada se resolverem vê-lo.

4 de julho de 2017

O furto de Tancos.


    Após os terríveis acontecimentos em Pedrógão e lugarejos vizinhos, o país acordou para outra polémica, distinta, mas com consequências potencialmente mais danosas numa perspectiva a longo prazo. Falo-vos do desaparecimento de arsenal bélico de dois paióis de Tancos. Um caso envolto em mistério, que a Comunicação Social vem tratando como um roubo. Ora, eu presumo que já uma vez terei feito menção à necessidade que os jornalistas têm de algum aprofundamento jurídico. O Direito e a Política andam de mãos dadas. Só por aí valeria a pena. Meus senhores, não houve nenhum roubo. Que se saiba, o material foi furtado. Não houve coacção sobre qualquer militar para que se desse a subtracção daqueles artefactos. Chamem-lhe preciosismo, mas o rigor nunca fez mal a ninguém.

     Este episódio deixa o Exército numa situação de falência junto da opinião pública, de profundo descrédito. Os portugueses não confiam nas instituições. O Exército, sendo um dos ramos das Forças Armadas, é um dos garantes da independência nacional, da manutenção do Estado de Direito. A idoneidade dos militares deve ser total. Suspeita-se que houve colaboração de alguém do Exército, ou seja, é a própria instituição que está em causa. Há bem pouco tempo, tivemos o caso dos comandos que morreram em exercícios. A páginas tantas, perguntamo-nos, legitimamente, acerca do que se passa no seio do Exército. O Presidente da República, como Comandante Supremo das Forças Armadas, deve aqui adoptar uma postura firme e deixar-se de palavras vãs. Ainda não ouvi, da parte do Senhor Presidente, um comunicado sério ao país. Passando ao Governo, a indiferença tem sido de uma infâmia com os cidadãos. Está em causa a imagem de Portugal no exterior e a própria segurança interna. Não sabemos qual será o destino daquele material, se o mercado negro, se um conflito armado qualquer, se um acto terrorista, inclusive por cá. A responsabilidade deve ser apurada, desde quem  tem a tutela até aos militares. Não simpatizo com Assunção Cristas, todavia devo dizer que cumpriu com o seu papel enquanto líder de um partido da oposição: questionou o Governo, reuniu-se com o Presidente da República e expôs ao país a sua apreensão. Fez o que lhe competia. Exigiu a demissão do ministro que detém a pasta da Defesa. Bom, eu não veria com maus olhos a sua substituição. Não tem, no meu entender, condições para se manter no Governo, e já tivemos casos de ministros que foram afastados por muito menos.

      De igual modo, incomoda-me o destaque que a imprensa espanhola tem dado ao caso. Compreendo que seja do interesse do Estado vizinho inteirar-se da situação, e segundo consta o Governo terá enviado aos seus parceiros um inventário do arsenal desaparecido, mas a publicação detalhada de cada artefacto, a pormenorização, não é própria quando se trata de um assunto que diz respeito a um outro Estado soberano. Com os incêndios, também houve o que na altura me pareceu uma ingerência mal dissimulada, em tentativas de descredibilizar o Governo, que é de esquerda, procurando-se evitar um arranjo semelhante por lá.

       É um assunto que está na ordem do dia, que me inquieta. A Comunicação Social é de modas, e não tarda dará lugar a outro e a outro. Eu não me esquecerei dele. Creio que ainda não entendemos a gravidade desta ocorrência, o desprestígio e a perigosidade que acarreta. É a primeira verdadeira crise que poderá abalar o Governo, que sempre apoiei, junto à catástrofe de Pedrógão. Está muito por explicar, há inúmeras perguntas sem resposta e exige-se, exige-se, uma decisão muito contundente do Primeiro-Ministro após a investigação levada a cabo pela Polícia Judiciária e pela Polícia Judiciária Militar.

30 de junho de 2017

Portugal na Taça das Confederações.


    Quem me conhece e me acompanha, sabe que presto toda a atenção aos torneios da UEFA e da FIFA, primordialmente, muito embora tenha assistido aos jogos da Copa América Centenário, no ano passado. Bom, tudo pertence à FIFA, em última instância, que é o organismo internacional que regula o futebol em todas as suas modalidades - e tem mais membros do que a ONU, o que não deixa de ser uma curiosidade.

    Pois bem, assim foi com esta competição, mirim, talvez, pelo número de selecções participantes. A Taça das Confederações reúne os campeões de cada confederação de futebol, e são vários: da América, da Ásia, de África, da Oceânia, da Europa, mais o país-sede, o campeão do mundo e quiçá outro. Portugal, pela primeira vez na sua história, por se ter sagrado campeão da Europa, participou nesta edição da taça, representando-se não apenas a si mas também ao seu continente.

    Como todos os portugueses que acompanham a selecção, eu depositei fortes expectativas neste conjunto que bateu a França em Paris. Pelo menos chegar à final. Não seria tarefa fácil. Defrontaríamos os campeões de cada confederação. Tivemos uma exibição muito à Portugal, a que apresentámos no Euro: vitórias esforçadas, à tangente, múltiplos empates. Parece que ganhamos e passamos sempre com um bocadinho de sorte. Sorte que desta vez não tivemos, pois desengane-se quem crê que fomos diferentes. É provável que tenhamos jogado com menos garra, e eu fui levado a julgá-los, ao grupo, modificados; entretanto, reflectindo melhor e desenterrando as memórias da prova europeia do ano passado, verifico que o jogo foi semelhante. A sorte, como referi acima, não nos bafejou. Eu já conhecia as equipas mexicana e chilena pela Copa América. Sabia que ambas, particularmente o Chile, dariam luta até ao fim. O México reage bem aos desaires, e o Chile, bom, tem um ataque fortíssimo. É um futebol muito sul-americano, não necessariamente melhor ou pior. Diverge do nosso.

      Não conseguimos marcar no tempo regulamentar, nem sofremos qualquer golo. Vimo-nos arrastados para o prolongamento e para os pontapés da marca de grande penalidade, que são uma lotaria. O Chile tem um histórico favorável de vencer jogos em grandes penalidades, e decisivos: na Copa América e na Copa América Centenário, em 2015 e em 2016, respectivamente, diante da Argentina pelas duas vezes, que perdeu. O que não explica, claro está, a nossa incapacidade em marcar um golo. Falhámos nas três vezes que tentámos furar a baliza de Claudio Bravo. Mérito dele, demérito nosso? Um pouco dos dois, é provável. Não se compreende, aí sim, que Ronaldo não tenha tentado inaugurar o marcador, quando é o nosso melhor jogador. Talvez tivesse acertado e dado outro alento aos colegas, talvez. A futurologia é sempre um exercício interessante, e inútil.

       A Taça das Confederações não é um torneio menor. Não tem o peso de um Europeu, muito menos de um Mundial, todavia tem o seu lugar entre as provas internacionais de selecções. Seria um título que poderíamos ter arrecadado. Envolve, ainda, somas avultadas e prestígio. Resta-nos disputar um não-honroso terceiro lugar com o México, atropelado quase impiedosamente pela Alemanha por quatro bolas a uma.

       Na medida em que acredito na sensatez de Fernando Santos, há que repensar o nosso jogo. Digamos que ele tem trabalhinho de casa, e não serei eu que lho vou ensinar. Esta selecção, que tem o seu valor, que é a campeã da Europa - não vamos agora esquecer os louros de um passado que nem é distante e diabolizá-la - precisa de todo um estímulo, de segurança no modo como actua. A nossa prova de fogo será em 2018, no Mundial que se realizará na Rússia. É aí que residem, no momento, os pensamentos e as preocupações de Fernando Santos. É que Portugal já não se apresenta como aquela selecção tímida à qual o acesso aos quartos-de-final era um luxo. Exige-se mais, tudo, de campeões.

24 de junho de 2017

O patamar.


   Na semana passada, para ser rigoroso no sábado, uns amigos convidaram-me para marchar pela cidade. Uma marcha de orgulho lgbt. Não, não marchei. Entretanto, dei com o final do evento na Ribeira das Naus, junto ao Tejo. Ouvi uns discursos e umas palavras de ordem, vi muita bandeira ondulando, balões multicores. Dezenas de jovens em pé e sentados na relva, confraternizando.

    O activismo por causas nunca despertou em mim o interesse, nem pela afamada causa lgbt. Falar de sexualidade não é tabu, nunca o foi, mas faz parte da minha e da intimidade de cada um, pelo que sempre procurei manter certo recato quanto a esse assunto. No que diz respeito às marchas e às manifestações, estive numa em frente à embaixada da Rússia. Creio que aí há o que fazer. Temos pessoas em campos de trabalhos forçados, tidas como criminosas quando o único delito foi o de amar um ser do mesmo género. É absurdo, transtorna qualquer um. Associei-me por um imperativo de consciência. Já as marchas, não fazem sentido num país cujo ordenamento jurídico prevê leis iguais para hétero e homossexuais, proibindo toda a discriminação em função da orientação sexual. Os transexuais também podem sujeitar-se à operação de redesignação sexual e usufruem de protecção legal. Nessa matéria, estamos evoluidíssimos. Figuramos entre os mais avançados da Europa. As marchas, se tanto aqui, perderam o fulgor. E não se lida com o preconceito assim, no meu entender, mas educando as pessoas. Tão-pouco peço para que se escondam, é evidente, até porque a visibilidade da dita comunidade lgbt é manifesta. Há pessoas lgbt na televisão, na rádio, na imprensa escrita. Não se vêem na política e no desporto, é verdade.

    Amanhã será o dia do arraial. Estarei presente, à partida. Passei por um há uns anos. Estive pouco tempo. Não custa ir e ver. Da mesma forma como não ligo a activismos, não os diabolizo. Encaro como mais uma noite quente de Verão, agradável, num ambiente descontraído, sem imposições ou horas de entrada e saída. Se não gostar, venho para casa, naturalmente. O conhecimento só enriquece.


     Posto isto, eu faria tudo diferente. A opinião é livre e responsável: a sexualidade não deve ser uma bandeira, seja ela qual for, e nem deve ser motivo de orgulho ou de vergonha. Não devemos dar tanta importância àquilo que os outros pensam que fazemos na cama. Já passámos esse patamar de afirmação. A sociedade está cansada de saber que há homossexuais, transexuais (e perdoem-me os mais ais que há, que são muitos; não os conheço a todos). Não será promovendo marchas que lutaremos devidamente contra os obstáculos que se erguem diariamente a quem é homossexual e transexual, quer seja no local de trabalho, na escola ou na família.

      Na lei, tudo está feito. Como referi acima, precisamos educar as pessoas para a diferença na igualdade, para a imperiosa necessidade de respeitar para colher o respeito. Esse trabalho faz-se desde tenra idade. A alguém formatado, e embora acredite que as pessoas possam mudar, o processo será mais difícil, mas igual. Educar, educar e educar. Leva o seu tempo. Portugal avançou substancialmente. Se compararmos à realidade do Estado Novo e mesmo à das duas primeiras décadas após Abril, facilmente verificamos o salto qualitativo.

       Não me alongo mais. Um bom São João, sendo caso disso.

18 de junho de 2017

Pedrógão Grande.


    Nunca fui a Pedrógão Grande. Nunca, felizmente, vivi um incêndio. Todavia, torna-se recorrente, a cada ano, escrever sobre estes flagelos que se abatem sobre o país, e sobre a Europa, sazonalmente. Não estamos em período de rescaldo. As chamas ainda deflagram pelo centro do país, consumindo hectares, ceifando vidas, provocando o caos e a dor. Estamos, todos, perturbados, perplexos, consternados, sobretudo pelo número avassalador de vítimas mortais. Sessenta e duas até ao momento, em dados que são permanentemente actualizados.

    Já sabemos o que pode e deve ser feito. A ladainha repete-se. Ordenamento florestal, pequenos coutos de mais fácil vigilância, cuidados acrescidos com a cultura do eucalipto, limitar a desertificação do interior, numa enumeração não exaustiva. Há estudos, há opiniões. Há, às vezes, culpados que nos transcendem. Fatalidades. Parece ter sido o caso. Temperaturas descomunais, incomuns, superiores a quarenta graus centígrados, uma humidade próxima do zero, ventos fortes, propícios a incrementar os fogos. Fenómenos naturais que não podemos prever.

    Só podemos minorar os danos e chorar as vítimas. Tentar aprender com os erros. Os incêndios repetir-se-ão - o Verão nem começou. Insisto na ideia: ainda que tenhamos sido negligentes com as florestas e que haja muito por mudar na nossa atitude, haverá imprevistos, sempre estaremos sujeitos a condições climáticas desfavoráveis. A busca por culpados é uma tendência irresistível, e compreendo a indignação. Somos muito severos connosco.

    Queria deixar uma palavra de apreço e de profunda gratidão às corporações de bombeiros, àquelas dezenas de homens e mulheres que arriscam as suas vidas pelas nossas. São os verdadeiros heróis, mesmo numa história que talvez, desta vez, tenha como único vilão o tempo. E a nós como cúmplices.

17 de junho de 2017

Feira do Livro.


    Na passada quinta-feira, dirigi-me uma vez mais à Feira do Livro. Ano após ano, sempre que posso acabo por passar por lá. Quando estudava, os descontos da Almedina e da Coimbra Editora eram bastante apelativos. Adquiria livros caríssimos com descontos de encher a vista. Nos anos mais recentes, e deixando o Direito de lado, fui percebendo que os alfarrabistas valiam a pena, enquanto que as grandes editoras praticavam preços exorbitantes para um conceito de feira. Soube - é verdade, foi uma novidade para mim - da dita happy hour, a determinados dias da semana e a um horário específico - com livros a cinquenta por cento de desconto imediato, com o senão de obrigatoriamente a primeira edição remontar a um período superior a dezoito meses. Bom, nenhum problema de maior por aí.

    Cheguei pelas nove e pouco, após ter subido a Avenida, bebi um café e pus-me a vasculhar. Pouco demorei. Muni-me logo de uma obra de Haruki Murakami, tão afamado e de quem nunca li nada, e de um romance histórico de Miguel Real. O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo e A Guerra dos Mascates. Quis comprar algo que envolvesse História, sendo ficção. Ambientado, digamos. Creio que terei feito boas compras. Ainda não lhes peguei. Pretendo começar pelo livro de Miguel Real, porque deposito maiores expectativas na obra de Murakami. E os livros vêm a calhar, uma vez que terminei há dias um dos clássicos de Saramago, que deixei a meio, algures por Fevereiro, por puro e assumido tédio. Venho fazendo uma colecção de livros, que se lêem numa tarde, e portanto tenho tido a mente ocupada.

     Sou muito metódico nos custos. Uns chamam-me forreta. Aceito a crítica, mas não corresponde à verdade. Simplesmente sei poupar e gosto de o fazer. Custa-me, digo-o frontalmente, gastar dinheiro na alimentação e em transportes. Em livros, no cinema, no teatro, numa exposição, em tecnologia que me faça falta e por aí, considero um bom investimento e dou o esforço por merecido. Contudo, divirto-me com conta, peso e medida. Tenho saído várias vezes, jantado fora de casa inúmeras, e não choramingo. Sei, entretanto, o meu limite. Hoje mesmo, para concluir, fui à Mouraria, petisquei, assisti ao bailarico e consegui divertir-me. Tenho um amigo a trabalhar por lá neste período das festas. Foi giríssimo. Só lamento que, por motivos logísticos, não tenha podido adiantar-me para lá da meia-noite - noitadas, como havia dito, não se repetirão de ânimo leve.

13 de junho de 2017

Santo António já se acabou.


    Ontem, e porque não desgosto de arraiais, passei uma noite agradável num dos bairros típicos de Lisboa. A bem dizer, o que me motiva não é a música, como se calcula, nem a confusão; gosto de me inebriar naquele espírito folclórico, tão tradicional e carismático. Os Santos Populares são uma das imagens de marca do país, que fizemos o favor de exportar para o Brasil, nomeadamente.

    Não consegui arrumar uma mesa num dos inúmeros restaurantes. Foi mais divertido assim, porque saciei a fome com uma bifana e duas farturas, numa das barraquinhas alinhadamente dispostas pelas ruelas. Diverti-me imenso. Mais do que em jantares, do que em saídas repetidamente programadas. E tive a melhor das companhias. A noite e a tarde deram, também, para perceber quem quero e não quero na minha vida, quem deixei entrar e de quem me pretendo afastar, porque não me sinto bem quando estou por perto. E mediante que sou um ser solitário, muito auto-suficiente nos afectos (compensando a falta dela noutros), pelo menos sei que estou a salvo da malícia alheia.

     Demorei-me pouco. Cheguei a casa a horas decentes. Não dou os Santos por encerrados, não, porque pretendo repetir. Estamos no mês das festas, e ainda me falta comprar o manjerico.

8 de junho de 2017

A união das coroas de Castela e Aragão.


    No dealbar do século XV, mais concretamente em 1412, invocando-se razões dinásticas e de relação de forças nobiliárquicas e militares, havia-se chegado a um acordo, o Compromisso de Caspe. Através dele, determinava-se que o trono vago de Aragão seria ocupado por um nobre castelhano, Fernando de Antequera, à época regente de Castela devido à menoridade de João II, e desde então, também, rei de Aragão. Esta conjuntura vem sido entendida como um primórdio do que viria a ser a união das coroas castelhana e aragonesa.

    O filho de Fernando de Antequera, I de Aragão, Afonso V de Aragão, preferiu dar preferência aos seus interesses na península itálica. Ao tornar-se rei de Nápoles, deixou-se envolver a tal ponto pela cultura renascentista, que despontava, que não mais regressou à sua pátria. Entretanto, o seu sobrinho, Fernando, e futuro monarca daquela coroa, teria um papel determinante no processo histórico dos reinos peninsulares.

     Os laços de parentesco que uniam as diversas entidades peninsulares eram intrincados. Surgiam movidos pelos recorrentes matrimónios. Assim se estabeleciam alianças políticas. O Reino de Castela, num turbulento processo que não abordarei agora, coube a Isabel, no seguimento da morte do pretendente varão melhor posicionado e de ter sido afastada da sucessão outra candidata, a famosa Joana, a Beltraneja, cuja filiação sempre foi posta em causa e que colhia o apoio de D. Afonso V de Portugal, vencido na Batalha de Toro, em 1476, e que viria a reconhecer, três anos mais tarde, pelo Tratado de Alcáçovas (1479), a realeza de Isabel, casada com Fernando de Aragão. Estes dois monarcas ficariam irremediavelmente ligados à história de Espanha, pois o esboço do que seria a moderna Espanha que conhecemos deu-se por acção destas duas personagens.

     Levantara-se, antes, o problema de saber com quem deveria casar a jovem princesa, uma questão que envolvia os três reinos peninsulares, uma vez que a escolha do esposo equivaleria a unir Castela a Aragão ou a Portugal. Coube, aqui, a habilidade de João de Aragão e dos partidários castelhanos. Isabel aceitou Fernando em 1469. A nobreza castelhana, que ora apoiava Joana, casada com D. Afonso V de Portugal, ora Isabel, casada com Fernando II de Aragão, aquietou-se. Com a morte de Henrique IV, pai de Joana, em 1474, a guerra tornou-se uma inevitabilidade.

     O enlace de Isabel com Fernando, os Reis Católicos, não correspondeu à completa realização da tendência unificadora de Castela, mas a situações que poderiam sofrer alterações. Não havia, de jure, uma unidade. Castela e Aragão, e o mesmo se poderia dizer de Navarra, conquistada e incorporada em Castela três anos antes, mantiveram os seus foros e as suas prerrogativas separadamente. Nesse sentido, o matrimónio não configurou, pois, um remate do processo desencadeado, mas o surgimento de uma fase de unificação histórica, cujo destino dependeria da relação de forças e da vontade política orientada para uma entidade una. Castela, na união, assumiu um papel de preponderância. Possuía maiores recursos e depressa se tornou o epicentro da união. Foi Castela que dirigiu a política externa dos Reis Católicos, sem prejuízo de se considerar também as possessões mediterrânicas de Aragão, e não só os domínios atlânticos de Castela.

     Isabel de Castela revelou uma tenacidade que a levou a conseguir o que jamais algum outro rei castelhano havia conseguido. Munida de inquebrantável vigor, eliminou a desordem que se instalara entre a nobreza, e que tanta inquietação havia trazido ao reino. Ordenou pesadas sanções aos nobres que contra ela se haviam rebelado. Conseguiu até mesmo sujeitar as poderosas ordens da cavalaria, cujas riquezas começaram a servir os desígnios da Coroa, no seguimento do cargo de Grão-Mestre outorgado pelo Papa a Fernando, seu marido. As Cortes reuniam-se progressivamente menos, na política centralista que também se verificava em Portugal com D. João II, que subordinou a grande nobreza à Corte, tendo vencido o duque de Bragança e o duque de Viseu, em 1483 e 1484, respectivamente.

      De extrema importância para a política externa castelhana foi também a introdução, em Espanha, da Inquisição, bem assim como o recrudescimento da intolerância com os judeus e os mouros. Para os Reis Católicos, a religião católica, passo a redundância, representava um elemento fundamental na unificação. Era-lhes insuportável a convivência com o derradeiro reduto mouro na península, Granada, que havia conseguido sobreviver aos outros reinos mouros, muito devido à fragilidade da monarquia castelhana até então.
      A guerra teria uma duração de dez longos anos, até Boabdil capitular diante dos monarcas espanhóis, em 1492. Terminava, assim, um capítulo de oitocentos anos desde a ocupação muçulmana da península. No mesmo ano, Colombo descobria a América ao serviço dos Reis Católicos. Começava a desenhar-se um outro na história da nova potência peninsular, desta feita unificada.

5 de junho de 2017

Jantar de blogues.


    No sábado, realizou-se o jantar anual de blogues, um evento dinamizador da blogosfera. Venho participando desde a edição de 2013. Conheci alguns amigos, curiosamente os que se mantêm, nesse jantar. À distância de sete, oito anos, posso afirmar, com segurança, que alguns houve que recusei por não me sentir preparado. Preparado para me dar a conhecer. Não por temer, como muitos, perder a oportuna protecção do manto do anonimato, mas por não sentir afinidade suficiente para tal. Continuo a sentir-me confiante para abordar qualquer assunto, e o facto de progressivamente falar menos da minha vida pessoal prende-se ao processo evolutivo natural. As pessoas mudam, e a minha vida é pouco estimulante para que encha publicações.

    O jantar teve lugar num restaurante no Príncipe Real, o Frei Contente, a que faço publicidade porque considero um espaço acolhedor, com pessoal simpático e atencioso. A comida é boa, o preço é acessível. Gostei bastante. Já tinha gostado no ano passado.
    Confraternizou-se, revi um velho amigo. Sentaram-me à cabeceira. Foi fantástico, tive uma visão desafogada sobre os presentes.

    Seguiu-se uma visita curiosa, diria eu, ao bar de um hotel, o The Late Birds Lisbon. Não posso dizer que tenha ficado fã, todavia gostei do conceito e do sossego. A ideia, estou em crer, era a de proporcionar o diálogo, a partilha, o convívio. Ficámos comodamente instalados no piso de cima, com direito a música ambiente vinda de um arraial popular. Foi para lá que seguimos, onde estivemos por breves instantes. Um arraial dos Santos Populares, que Lisboa começa a ficar ao rubro. Muita gente nas ruas, pessoal jovem, sobretudo. Muito consumo de álcool, excessivo.

     A noite, pelo menos em grupo, terminou com a ida a uma festa, se é que lhe podemos chamar assim, a Conga. Foi a minha primeira, e seguramente a última, não porque tenha algo contra, nada disso, mas porque sofrerei, avento eu, de uma hipersensibilidade auditiva. Entrei, fiquei nem dez minutos e saí. Eu sinto dor nos ouvidos. Não se trata de não gostar de sons excessivamente altos; trata-se, isso sim, de um profundo desconforto. Felizmente, o segurança percebeu o meu incómodo e aconselhou-me a falar com a menina, que devolveu o dinheiro. Ainda estive uns minutos sentado num parapeito, à entrada, e fui alvo dos olhares indiscretos de um matulão moreno. Nada que deixasse de me fazer sentir como peixe fora d'água. Muito respeito para quem gosta, eu não me identifico. Prefiro barzinhos, cheguei a insinuar um, que não colheu o apoio necessário.

      E por aqui ficou a minha noite, com uns imprevistos pelo meio, que se ultrapassaram.
      Reitero, uma vez mais, que gostei muito, principalmente pela companhia. Diverti-me, e isso compensa. Aprendi umas coisinhas por outras: noitadas, em circunstâncias análogas, não se repetirão.
      Uma palavra ao organizador, o adolescente, que está de parabéns; à leitora Magg, autora do banner, e a todos os que participaram.

31 de maio de 2017

The Circle.


   Abri uma excepção àquilo que havia dito, ou seja, que iria reduzir os artigos respeitantes às minhas idas ao cinema. Não deixei de ir; pelo contrário, tenho ido mais do que nunca. Não quero, até porque não levaria jeito, passar a ideia de que pretendo tornar-me num crítico de cinema. Falta-me bagagem cinematográfica (eu bem digo que serei um gajo interessante aos cinquenta anos).

   Este The Circle merece, então, a excepção. Desde o Lion, algures por Fevereiro, presumo, que um filme não me suscitava tanto o interesse. Não li qualquer sinopse. Sabia que tinha assistido a um trailer, mas tão-pouco me recordava de nada.

    A empresa / rede social Circle é um eufemismo de outra empresa que tão bem conhecemos. Com planos que deixariam Orwell corado, Bailey, protagonizado por Tom Hanks, acredita ser possível conectar o mundo na sua rede, deixando a descoberto a vida de biliões de pessoas. Mae Holland consegue uma entrevista para trabalhar na empresa, ficando com o lugar e apercebendo-se desde cedo que pouca ou nenhuma privacidade era permitida aos funcionários da Circle. Desde as actividades nos dias de folga até aos batimentos cardíacos, tudo era monitorizado por funcionários.

     Mae torna-se pioneira num projecto-piloto, quando passa a estar 24h por dia a ser seguida por milhares de pessoas através de câmaras devidamente instaladas no seu quarto e na sua casa. Umas microcâmaras, camufladas, inclusive, eram o último grito em tecnologia, que permitiria colocar o mundo online, encontrar qualquer pessoa em milésimos de segundo, votar em actos eleitorais, tornando cidadãos e governantes, países, a bem ver, reféns da Circle.

      O filme, como se adivinha, levanta problemas éticos. Até que ponto a tecnologia pode comprimir a nossa privacidade, expondo a nossa intimidade a estranhos. Um tema actual e nada fictício. Não haverá legislação alguma que consiga proteger-nos dos avanços tecnológicos. A tendência é para que progressivamente sejamos controlados. Recordo-me, em miúdo, isto em 2001, de instalarem duas enormes câmaras no recreio do colégio. Sentia-me permanentemente vigiado. Ainda que os tribunais se decidam por inconstitucionalidades várias, os benefícios sobrepor-se-ão. Governantes e governados, na deriva securitária, exigirão bases de dados, visionamentos permanentes. As microcâmaras farão com que nem saibamos que estamos a ser observados. Conscientemente, já partilhamos várias das nossas actividades online, onde estamos, o que fazemos e com quem. Eu mesmo.

      O interesse do filme reside aí. Faz, pelo menos foi esse o efeito que teve em mim, com que coloquemos questões básicas. Um acto tão comum como pegar no telemóvel e publicar que estamos no cinema X à hora Y pode ter consequências nefastas, por-nos em perigo, desde logo, e permitir que dados referentes à nossa vida sejam monitorizados sabe-se lá em que parte. As sedes pouco contam num mundo virtual. Clara Ferreira Alves, jornalista, tem-se pronunciado, e com ela concordo, sobre estas matérias. Convém que saibamos quando desligar. E, uma vez mais, aplico-me o conselho.

      Uma palavra para os actores: o Tom Hanks, as usual, fenomenal; a Emma Watson continua com aquele ar da miúda do Harry Potter, não cresce, decididamente, e não me pareceu ter uma actuação fora de série. Foi boazinha no que fez, esforçou-se. O filme vale pela inquietação que provoca.

29 de maio de 2017

Mil.


   Pensei em se deveria assinalar o feito. Nada de extraordinário. Trata-se de um patamar sem qualquer importância. Eu atribuo à estética do número. 1000. É redondinho. Acresceu um dígito. Esta é, então, a milésima publicação do blogue, que terá, seguramente, mais textos do que fotos ou vídeos. Orgulho-me disso. São centenas de artigos, crónicas e alguns ensaios (os possíveis num blogue) originais. Será interessante, daqui a uns aninhos, compilá-los numa obra qualquer. Lá para os quarenta, cinquenta, que é quando dizem que atingimos a maturidade. Como presumo que estamos sempre em constante aprendizagem, acredito que serei um tipo interessante daqui a vinte anos.

    Uma tarde molhada, que inviabilizou por completo poder assistir a um concerto dos Clã, que adoro ( « devia ser como no cinema, a língua inglesa fica sempre bem, e nunca atraiçoa ninguém » ). Com o percalço da chuva, não deixou por isso de ser agradável. Visitei a exposição de Almada Negreiros, patente na Gulbenkian até dia quatro do mês que vem, uma visita que andei a protelar. Como referi numa outra plataforma, vale bem a pena. São dois pisos de telas e esboços, bem divididos e devidamente identificados com as legendas. É um espólio numeroso. Exige calma e paciência, até pelo aglomerado que se gera. Foi das visitas de que mais gostei. O amigo que me acompanhou despachou-se prontamente, enquanto que eu me demorei o tempo suficiente. Vi tudo com atenção.

    Almada Negreiros foi um artista extraordinário, multifacetado até na pintura. A determinado momento, a sua versatilidade enquanto pintor reportou-me aos heterónimos de Fernando Pessoa, com quem, aliás, privou de perto. Enquadrando-o no Modernismo português, Almada Negreiros inspirou-se nas correntes europeias e em nomes maiores das artes plásticas espanholas. Morou em Madrid, tendo essa estadia se reflectido numa parte considerável do seu legado.

    Deixo-vos algumas fotos, o que não é menos caricato por constarem numa publicação em que destaco outras novecentas e noventa e nove praticamente sem elas.




           


25 de maio de 2017

Portugal está na moda.


   Já li esta frase algures, esta semana, e achei curiosa. Não sei até que ponto estaremos na moda, mas estamos a viver momentos de optimismo, sem euforia. O Presidente da República disse, há um dia ou dois, que temia que a manifesta recuperação económica levasse os portugueses a um estado de alienação. Até ao momento, não o sinto. Estamos, é certo, a sentir emoções inéditas. No desporto e na música, jogamos cartas; temos um alto dignitário no cargo de maior relevo entre as organizações internacionais; após décadas de marasmo e de anos de pesados sacríficos, vislumbramos a saída da crise, constatamos o crescimento económico e até no turismo, a diminuição do desemprego, o aumento dos salários e das pensões. A última boa notícia prende-se à recomendação da Comissão Europeia para que o Conselho da União Europeia retire o país do Procedimento por Défice Excessivo, o que acarretaria, ao menos na psique nacional, um alívio. A decisão está para breve.

   Creio que, enquanto colectividade, estamos a recuperar algum do amor próprio perdido. O português médio subvaloriza-se. Temos uma alma maior do que o corpo. Demonstrámos, pela história, feitos heróicos, soberbas façanhas. Nos últimos anos, convenceram-nos de que não éramos bem europeus, e que não poderíamos mais viver como tal. Aliás, a Europa sempre nos foi meio estranha. Só começámos a olhá-la quando nos afastámos do mundo. Jamais foi a nossa prioridade. Estarmos na periferia ajudou-nos a manter as fronteiras praticamente intactas desde Alcanizes, há setecentos e muitos anos, e a contornar os principais conflitos estalados no continente. Deu-nos fôlego para as aventuras d'além-mar, onde provámos, sem grande esforço, ser os melhores. Desengane-se quem crê que ser português não nos custou suor. Conquistámos o direito a sê-lo. Os nossos novecentos anos comprovam a luta, nem sempre justa, para escapar às forças centrípetas da península.

    Encaro os tempos que se avizinham com confiança, todavia com prudência. Provou-se que a austeridade não era o caminho certo, e que devolver às pessoas o que lhes era devido teve um efeito positivo na economia. Porque os números falam por si. A matemática é uma ciência exacta. Longe de querer agradar com populismos, o Governo acreditou ser possível contrariar uma corrente ideológica que via, em medidas que devem ser excepcionais, uma orientação política definida, como se não mais nos restasse do que viver em infinita contenção e sob permanentes ameaças de descalabro das contas públicas e de bancarrota.

    Espero que a moda seja um indicador de mudança, também na nossa atitude, mais obstinada, chauvinista, que em dose certa pode produzir pequenos milagres.

19 de maio de 2017

O Ornitólogo.


   Desconcertante filme a que assisti, ontem, no canal TVCine 2. As obras que ostentam a chancela João Pedro Rodrigues são quase sempre polémicas, oníricas. O Ornitólogo não foge à regra. Conheci este realizador em pequeno, com o épico O Fantasma. A um miúdo, o filme perturba, sobretudo porque foca um submundo duvidoso de fantasias insondáveis e fetiches. Odete surpreendeu menos. Morrer Como Um Homem, o pior dos três, teve direito a que fosse ao cinema com o pai, que é extremamente à-vontade com a temática LGBT. É esta, aliás, a característica comum aos filmes de João Pedro Rodrigues.

   O Ornitólogo começa com um homem solitário, que trabalha justamente como ornitólogo, que parte numa expedição para estudar o processo de acasalamento e de nidificação de uma determinada espécie de aves. Durante uma travessia de caiaque, sofre um acidente provocado pela ondulação, sendo posteriormente resgatado, inconsciente, por duas turistas chinesas que fazem o caminho de Santiago. Após tomar conhecimento da fé de ambas, toma um chá tradicional chinês e acorda amarrado por cordas, com uma pujante erecção nas suas ceroulas brancas. Procura desamarrar-se. As cordas que envolvem o seu corpo acentuam-lhe as formas masculinas. A temática sadomasoquista, já explorada em O Fantasma, surge aqui, revigorada e adaptada, em meio com a fé cristã. Fernando não é apenas o ornitólogo; é o mártir. As turistas querem castrá-lo ao terem tomado conhecimento da sua apostasia.

    Consegue fugir, levando alguns dos seus objectos. Assiste à festa dos rapazes, numa madrugada, no meio de uma floresta do interior transmontano, e ao sacrífico de um animal. O folclore e as seitas pagãs misturam-se com o desejo. Um dos rapazes vislumbra-o ao longe e desculpa-se aos seus pares, em mirandês, com a necessidade de se afastar. Fernando, protegido pela penumbra e abrigado sob uma pedra, recebe a providencial urina do careto, pelo rosto e pelos lábios, vinda de cima.

    Pela manhã, observa a arte pastorícia de um rapaz surdo, a quem indaga pelo desaparecimento dos seus pertences. Nadam juntos. Deitam-se na areia, escrevem os seus nomes com um pequeno caniço. Jesus, é este o nome do rapaz. Fernando empresta os seus binóculos para que Jesus possa ver uma ave com maior precisão. O rapaz encosta-se no seu peito. Beijam-se avidamente, rebolando pela areia. A paixão assolapada é bruscamente interrompida quando, à partida, o rapaz tira uma camisola com capuz do seu saco, que Fernando identifica como sua. Ao ser confrontado, Jesus puxa de uma navalha. Envolvem-se numa luta corporal e Fernando consegue desferir-lhe um golpe certeiro no coração, que mata o pastor.

     Persiste a caminhada de Fernando na floresta, em busca de uma saída que o leve ao carro. Pontualmente, recebe SMS no telemóvel, um dos objectos que havia recuperado, de alguém que está preocupado com a sua saúde. Fernando toma comprimidos. Ao longo do filme, não conseguimos identificar para quê. Consegue albergar-se numa tenda improvisada. Cuida de uma pomba branca, símbolo da paz e da castidade, que recupera misteriosamente de um trauma na asa. Encontra o seu documento de identificação com a fotografia picada e as impressões digitais borradas, o que evidencia que foi usado num ritual. Os instintos vocacionais de Fernando são testados no sermão aos peixes.


     Não é difícil perdermo-nos no decurso do filme. Há um encontro fortuito com três amazonas que falam latim e um milagre, quando Fernando assume as vestes de Santo António e traz o irmão gémeo de Jesus, Tomé, ou o próprio Jesus, à vida. A trama termina com Fernando enquanto Santo António, incorporado pelo próprio realizador, passeando-se numa rua da Galiza, pelo que me pareceu, com o jovem careto.

      A longa-metragem é uma história de sobrevivência, de cruzamento entre o sagrado e o profano, de um homem, com a sua libido, que passa por uma experiência transcendental que o modifica para sempre. O homoerotismo, desde logo pelos planos minuciosos, é uma constante. O actor principal, Paul Hamy, foi escolhido a rigor. Em cada detalhe do filme verificamos o desfiar dos estereótipos associados, e muito justamente, aos homossexuais.

      Gostei particularmente do filme, pese embora todo o meu preconceito com o cinema português, demasiado monótono para a minha busca constante por estímulo.

14 de maio de 2017

Amar por todos.


    Uma noite inesquecível para Portugal, semelhante àquela que vivemos nem há um ano, com a vitória no Europeu de futebol. Porque estes eventos, ainda aos que não lhes atribuem qualquer significado, colocam-nos sob a mira de milhões, dão-nos alento, são quase que o grito que damos ao mundo. Existimos. Conseguimos ser os melhores.

     Eu, particularmente, não aprecio a Eurovisão, mas deixei-me embalar no bonito poema que Luísa Sobral escreveu para que o irmão o cantasse. Há aquele coração dela que pode amar pelos dois, sobretudo pelo dele, por todos os problemas que vieram a público. É um poema que, cantado, acompanhado pelos violinos, ganha uma dimensão que não parece resultar das suas palavras aparentemente tão simples.

     A língua portuguesa brilhou em Kiev. Pôs estrangeiros a chorar ao som da voz de Salvador, muitos dos quais não compreendendo nada. É a linguagem universal da música, a capacidade de nos comover. Amália teve a experiência pela União Soviética e pelo Japão, quando entoou grandes poetas portugueses.

      Amar Pelos Dois conseguiu, ainda, transportar para a Europa toda a alma portuguesa, nostálgica, melancólica. É o triunfo do Portugal português, sem adornos, sem danças histriónicas e maquilhagens pesadas. Um homem e um microfone. A voz e a sua expressão corporal tão peculiar comunicaram com a Europa de lés a lés. Não precisámos de mais. Limitámo-nos a ser o que verdadeiramente somos: simples.

      A nossa língua e o Salvador estão de parabéns. E a irmã do Salvador. A vitória é-lhes inteiramente merecida. Obrigado por levarem a portugalidade até à Hungria, à Lituânia, à Geórgia e a tantos outros. Imprimimos o nosso nome na história do maior evento musical anual europeu.

10 de maio de 2017

Fátima.


   Fátima tem sido, pelos tempos, um assunto tabu para mim, a ponto de, presumo, nunca o ter abordado aqui. Na família, tenho de tudo: crentes, menos crentes, a mãe é crente. E eu nem sei como me hei-de posicionar. Por temor reverencial, assumo, provavelmente tenho evitado debruçar-me sobre as aparições. Evito pronunciar-me, não vá ser verdade. É cobardia, é, mas também é respeito. Tive uma fase mais esquerdista na minha adolescência, antes de me ter posicionado, e em definitivo, assim espero!, ao centro. Ainda assim, jamais afrontei a religiosidade alheia. É disparatado. Podemos discordar, sim - devemos, aliás, se é o que a nossa consciência dita - mas, em matérias tão sensíveis como a religião, devemos ter um cuidado redobrado. A fé não se explica. É tão forte que chega a curar, a melhorar sintomas de doenças. Até pelos seus aspectos positivos, deve ser respeitada e reconhecida como potencialmente importante. Dos seus efeitos perversos está a História cheia, e bem os conhecemos.

    Sou católico. Deixo-o aqui de forma clara. No tal período de indefinição, típico da adolescência, passei a agnóstico, quase ateu. Estava mesmo chateado com Deus. Quando os pais se separaram, aumentou essa desconfiança sobre uma figura qualquer que nos vendiam desde pequenos, sobretudo procurando atemorizar-nos com castigos. Crescer fez-me bem, até na religiosidade, porque percebi que não havia mal algum em acreditar em Deus e em até ser católico, podendo expurgar o que considerava estar errado na Igreja. Ser católico, pelo menos quanto a mim, não implica perfilhar de todas as orientações doutrinárias da Igreja. Oponho-me a algumas, concordo com outras tantas. E identifico-me como católico porque acredito na pedra angular, se me permitem, do catolicismo, que me reservo a não explorar aqui porque não é pertinente. Noutro momento, se se proporcionar, não terei problema algum em fazê-lo.

     Fátima é um dos enigmas que não dou por garantido. Ponho em causa a sua veracidade desde que me conheço. Não que desconfie da palavra dos pastorinhos, mas tento explicar Fátima contextualizando-a no tempo. As aparições foram oportunas. A anticlerical I República havia arrastado Portugal para a I Guerra Mundial - o erro que ditaria ao seu fim. O país precisava recuperar a crença, então perseguida pelos republicanos. E Fátima sustentaria o golpe de 1926 e, sobretudo, o Estado Novo de Oliveira Salazar, fortemente inspirado na doutrina social da Igreja. Fátima, pelas décadas, configurou um dos pilares do regime. Cresceu em importância e em volume de negócios. Hoje, é um fenómeno que gera milhões. Lembra-me, às vezes, os vendilhões que Jesus expulsou do templo. Quando olho para o santuário, vejo muita fé verdadeira de milhares de pessoas que para lá se deslocam, e que isso lhes faça bem; em contrapartida, há ganância, oportunismo e visível cinismo, arriscar-me-ia a dizer, por parte das entidades que gerem, e é este o vocábulo apropriado, aquele manancial de dinheiro.

     Não quero entrar muito pelas questões que se prendem mais à fé: a senhora mais brilhante do que o sol, o dito milagre - que a ciência tem procurado esclarecer, com argumentos muito lúcidos - os segredos. Tudo é possível nas efabulações. As pessoas precisam de acreditar em alguma coisa. Em religiões da palavra, como o são as religiões abraâmicas, não há, tendencialmente, símbolos e imagens. E os crentes precisam disso, precisam de orar defronte a uma imagem, de acender uma velinha, de ostentar uma cruz que os proteja. É tudo compreensível. Faz tudo parte desse grande mistério da fé. E Portugal precisava de ter um importante local de culto, como Lourdes. Um país tão católico, tão absorto na sua religiosidade e na sua tradição, não poderia passar sem.

     Simultaneamente, as manifestações de crendice e os exageros que as rodeiam não deveriam surpreender. Em mim, entretanto, continuam a provocar certa consternação. Não me sinto confortável quanto vejo o meu Chefe de Estado a beijar a mão ao Papa, um líder religioso, da religião maioritária em Portugal, seguramente que sim, mas que representa determinada instituição, sendo que o Chefe de Estado, investido como tal, representa o Estado português, laico. Incomoda-me, ainda, ver um militar, no exercício das suas funções, referir-se a um líder religioso com deferência excessiva, demonstrativa da sua crença pessoal, quando pertence às forças armadas do Estado português, laico, repito, bem como me incomoda que se suspendam acordos internacionais, que vinculam o Estado português, na recepção a um líder religioso. Se a ameaça terrorista o exige, pois ela existe para todos os cidadãos, não apenas para alguns, lá que sejam sucessores de Pedro. Se os acordos que prevêem a liberdade de circulação não protegem os direitos constitucionalmente previstos, termine-se com eles. E, aqui, de nada releva estarmos perante um Chefe de Estado estrangeiro. Vários Chefes de Estado estrangeiros têm vindo a Portugal e, que me conste, não se repôs o controlo fronteiriço.

     Fátima continuará a suscitar opiniões díspares, umas mais racionais, outras espirituais. Encontrar-se-á o equilíbrio ao manter o Estado equidistante o suficiente. Deixar com Deus o que é Deus, e limitar-se a ficar com o que é de César.

8 de maio de 2017

La France.


    Temi, assumo, temi que verificássemos o mesmo resultado que nos aguardou nos EUA. A Europa tem conhecido uns desvios à direita mais intolerante um pouco por cada país, desde os Países Baixos à Itália, à Turquia, inclusive, mas a França representa para todos bem mais. É a pátria da igualdade, da liberdade e da fraternidade, valores que presidem à Europa continental democrática. A França foi a primeira a enterrar o Antigo Regime, não sem passar por períodos políticos muito convulsos, afirmando-se como potência europeia e mundial. O expressivo império que ergueu prova a sua hegemonia. No campo das ideias, poucas nações como a francesa terão contribuído tanto para o nosso enriquecimento no direito, na filosofia, na politologia, na sociologia, áreas do conhecimento que influenciaram decisivamente épocas e regimes.

    A França representa, ainda, o empenho solidário do bloco europeu. É um baluarte na União Europeia, o seu sustento ante uma Alemanha economicamente dominante. Com o Brexit, que é uma evidência, a esperança de um eixo Paris - Berlim que permita contrabalançar o poderio da Alemanha desvanecer-se-ia, confirmando-se a vitória da Frente Nacional. O sistema francês é semipresidencialista, todavia, e inversamente ao português, com a tónica no presidencialismo. O Presidente da República é, efectivamente, o chefe da nação francesa, o definidor das orientações políticas no relacionamento da República com Estados terceiros.

     Le Pen, com o seu programa populista, poria a Europa numa crise de sustentabilidade política jamais vista. Se a UE agoniza, a líder da FN, numa França dominada tradicionalmente pelo aparelho estatal, de tudo faria para afastar o país da organização, deixando-nos a todos num impasse: sair ou ficar, condescender ou enfrentar. A decisão dos franceses nas urnas foi sábia. Emmanuel Macron tem fragilidades. Representa o sistema, com todos os seus vícios, mas soube - e ele próprio situa-se no centro político - manter um discurso equilibrado, nada excludente, pelo contrário, integrador. Enfrentou Le Pen, não a subestimando - o grande erro que se cometeu nos EUA, e conseguiu que se comprovasse nas câmaras a fragilidade das ideias de Le Pen, demagógicas, que procuram sempre aquele travo de intolerância que todos teríamos com atentados quase semanais à porta de casa. A obsessão securitária, tão previsível, e que Le Pen assumiu frontalmente, foi desconstruída. A França que a FN vendia não era a França tolerante, europeísta, laica e secular que os franceses querem ver assegurada.

     A distância que separou Le Pen e Macron, nesta segunda volta, foi expressiva. Não devemos, contudo, ignorar os onze milhões de eleitores que confiaram em Le Pen. Foi o melhor resultado da Frente Nacional, superior ao obtido em 2002, quando o pai da actual líder, Jean-Marie Le Pen, defrontou Jacques Chirac numa segunda volta. Analisando os resultados da Frente Nacional, observamos uma tendência crescente, preocupante, considerando que muito em breve os franceses terão eleições legislativas. E Macron, que há um ano ninguém diria que este desfecho seria ponderável, tem a seu favor o resultado de hoje, não acreditando eu numa surpresa a tão pouco tempo. Independente, afastou os partidos do poder da luta pelo Eliseu. É um fenómeno. Espera-se que o movimento que lidera consiga um número muito apreciável de assentos na Assembleia Nacional, mas não o suficiente para se afastar uma convivência difícil com um Primeiro-Ministro de outra cor política ou com uma composição parlamentar minoritária e adversa, o que obrigaria, como bem conhecemos em Portugal, a alianças que permitam a condução governativa do país.

     Por enquanto, e porque estes actos eleitorais das potências europeias têm sempre repercussões nos pequenos Estados periféricos, podemos suspirar de alívio. Macron é pró-europeu, segue a linha da continuidade. Uma continuidade que nos é favorável. O resto é com eles.

5 de maio de 2017

O Dia da Língua Portuguesa.


     Há uns poucos anos, o dia 5 de Maio foi institucionalizado como o Dia da Língua Portuguesa no seio da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Cada país comemorá-lo-á na sua data. Em Portugal, por tradição, a 10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades; no Brasil, a 5 de Novembro, Dia Nacional da Língua Portuguesa. O dia de hoje passou relativamente despercebido entre os cidadãos lusófonos, acompanhando a fragilidade da própria CPLP. Irei falar pouco da organização, que, recordo-me, escrevi sobre ela há uns meses.

     Em que patamar estamos quanto ao nosso idioma? Pelo que venho percebendo, a língua portuguesa vem suscitando o interesse de milhões de não-lusófonos. Pela China e pelo Japão, ganha adeptos. O desditoso Acordo Ortográfico, que jamais logrou o consenso e que ainda carece de ratificação por parte de alguns Estados-membros da CPLP, está em vigor com lacunas e com falta de suporte popular, aqui e no Brasil, que os PALOP e Timor têm mais em que se preocupar. No plano das ideias, é bom ter um idioma unificado, idealmente uniformizado. Quem conhece o Acordo, sabe que a uniformização é uma falácia. As omissões são mais que muitas. A eliminação de sinais gráficos e de determinadas consoantes tornou, em alguns casos, vocábulos em aberrações ortográficas, esteticamente feias, linguisticamente intoleráveis.

     A despeito das polémicas, é de saudar a unidade da língua. É ainda de saudar que os países africanos que foram antigas províncias ultramarinas a tenham adoptado como seu idioma oficial, veicular. Que o Brasil a use, ao seu jeito, com desinvestimento dos sucessivos governos na educação e com milhões que a dominam mal, mas que a use e que lhe chame aquilo que ela é, portuguesa. Que os timorenses a queiram aprender cada vez mais. Em quinze anos de independência, passámos de 5 % para 20 % de timorenses que conseguem expressar-se em português, provavelmente longe do domínio aceitável, mas encarando-a como elemento identitário e diferenciador. Ora, temos, lusófonos, de observar o lado positivo. Temos um idioma uno. Há, por parte das entidades governativas, vontade em mantê-la coesa. Em ensiná-la. O Instituto Camões, que vem-se substituindo em competências ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa, está presente em variadíssimos países. Centenas de milhares de alunos aprendem-na com avidez. Namíbia e Uruguai são dois exemplos de países que, pela proximidade a Angola e ao Brasil, respectivamente, vêem uma mais-valia na inclusão da língua portuguesa nos seus currículos.

     Um dos principais desafios para as próximas décadas, a par da propagação do idioma em países alheios à lusofonia, é o de se cimentar a língua portuguesa nos falantes maternos, procurando-se que estes atinjam um domínio culto do idioma, que consigam formular raciocínios bem estruturados, com uma ortografia e uma sintaxe aceitáveis. Não basta saber falar; há que saber falar bem. O futuro da língua portuguesa depende do grau de domínio dos seus falantes, sob pena de uma crioulização, uma simplificação rotineira que, a longo prazo, poderá comprometer a existência do idioma tal qual o conhecemos.

3 de maio de 2017

IX Aniversário.


    O blogue perfaz nove anos. É surpreendente constatar a voracidade do tempo. Tenho a exacta noção de quando o criei, das circunstâncias que o motivaram. Não pretendo dissimular o orgulho que tenho neste espaço. Continua a ser a minha plataforma de eleição, não obstante não abdicar de outras mais imediatas. Na imperiosa necessidade de ter de tratar de determinado assunto, inclusive de índole pessoal, o blogue assume-se como a minha escolha.

     Gosto de escrever. O segredo de se ter um blogue de escrita, primordialmente, é gostar de escrever. A apetência, quando é natural, faz com a que escrita flua sem imposições. Escrever é-me um exercício de catarse, de exteriorização de opinião. É o meu veículo de contacto com o mundo, a minha janela para o que vejo e sinto. São nove anos. Não sou a mesma pessoa de 2008. Encaro o blogue com outra atitude, mais responsável, que cresceu comigo, acompanhando-me neste processo evolutivo.

     O blogue tem passado relativamente incólume ao estado de apatia da blogosfera. Creio que também se deve ao facto de, como já referi, escrever por prazer. Não me preocupa o impacto que terá nos leitores - claro está que todos gostamos de saber que somos lidos e que nos acompanham. Entretanto, quem publica determinado conteúdo com um olho no alcance que terá, facilmente desanima.

      Quanto a mim, não senti ainda o desânimo ou a falta de inspiração. O mundo fornece-nos tanta matéria interessante que só um idiota - aqui sem ânimo de ser pejorativo; no sentido de indiferente - não encontrará um estímulo. Há uma panóplia de temas e de áreas de interesse que abarca todas as preferências pessoais. O segundo segredo de manter um blogue é este: escrever, ou publicar, melhor, sem pensar muito no que virá. Mais ou menos como viver. Pegando nas palavras da senhora da pastelaria em que comprei o bolo de aniversário - o meu, que o blogue só terá direito a um no 10.º aniversário (risos) -  « não ter pressa, ir contando os anos, um por um ».

      Não me alongarei mais. Já são nove as publicações que assinalam os aniversários. Resta-me agradecer a todos quantos me seguem e acompanham. Também àqueles que me enviam e-mails tão simpáticos e encorajadores. Bem hajam todos!


lots of love,
Mark