20 de abril de 2017

A tirania turca.


     É uma síndrome que percorre a Europa, não de uma ponta à outra, que Portugal tem-se sabido comportar condignamente, e damos uma lição à Europa dita civilizada. O extremismo recolhe poucos frutos no mais ocidental dos países do Velho Continente. Não conhecemos os discursos xenófobos, extremistas, que diabolizam minorias. Da Europa dita civilizada não faz parte a Turquia, que ainda é Europa, geograficamente, e que dirige a sua política externa para o ocidente. Aliado de primeira linha dos EUA, a Turquia é membro fundador da NATO, em 1949; do Conselho da Europa, no mesmo ano, e há perto de trinta anos acalenta o sonho de aderir à União Europeia. Em matéria de direitos humanos, o país retrocede, muito embora a abolição da pena de morte, num primeiro momento, tenha surgido como um sinal positivo que a Turquia parecia querer dar aos seus futuros parceiros.

      A Europa olha-a com desconfiança, e motivos não lhe faltam. Erdogan, o actual Chefe de Estado, sujeitou uma lei de revisão constitucional a plebiscito, por imperativo constitucional. O povo votou-a e fê-la aprovar. A partir de 2019, a Turquia, até então regida por um sistema parlamentar - em que o Governo depende do Parlamento -, tornar-se-á numa república presidencialista, ultrapresidencialista, eu diria, com um Presidente que acumulará os poderes legislativo, executivo e ainda terá a prerrogativa de nomear grande parte dos juízes dos tribunais superiores. O que teremos, em suma, será o fim da divisão tripartida de poderes e do sistema de checks and balances, em que os poderes se autocontrolam e autolimitam. A democracia sucumbiu aos devaneios autoritários de Erdogan. A Turquia, que contrastava com os demais países de maioria muçulmana pela sua relativa abertura, pelo Estado laico, pelo multipartidarismo, adensará a longa lista de Estados fanáticos.

     O país está dividido. Erdogan, que pede respeito pelo resultado, terá de lidar com a oposição, que não reconhece a vitória, já contestada e marcada por suspeitas de ilegalidade. Não me admiraria que o resultado do escrutínio tivesse sido obtido às custas de fraudes nas urnas. O Sim obteve pouco mais de 50 %. A sociedade turca está manifestamente dividida, e os poucos pontos percentuais que afastavam Erdogan do resultado que lhe seria favorável estão longe de convencer os analistas internacionais acerca da transparência no processo de contagem.

     Este retrocesso agudizará o preconceito ocidental contra o Islão. A Turquia é um ponto de passagem dos refugiados, lida há anos com revoltas na sua parcela do Curdistão. É frequentemente acusada de etnocídio do povo curdo.

      A adesão da Turquia à UE é improcedente. Não estão reunidas quaisquer condições. O regime turco demonstra rumar em sentido oposto aos princípios e aos valores que sustentam o bloco europeu. Bem assim, a deriva extremista na Turquia não auspicia nada de bom. Está em estado de emergência por um período indefinido, com sucessivas prorrogações. Há perseguições políticas. Pela sua importância estratégica e pela proximidade à Síria e ao Iraque, temo que o caos naquela região, tradicionalmente instável, aumente. A ventura de Erdogan será um estímulo aos populistas europeus que em breve enfrentarão a decisão popular. No ano de Trump e compinchas, nada me surpreende.

17 de abril de 2017

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?


   Uma tarde de Páscoa pouco convencional, diria eu à partida. Pelo contrário, a evidência contornou-me as suspeitas: sala cheia, um preço agradável por ser Dia Mundial da Voz (e domingo de Páscoa) e uma peça fantástica, adaptação do filme de 1966 com a magnífica Elizabeth Taylor.

    A peça - deixo o filme para que o vejam; eu vi-o há muitos anos num dos serões da RTP2 - trata de uma noite entre dois casais, o anfitrião e o convidado. Alexandra Lencastre e Diogo Infante são, respectivamente, Martha e George, um casal na meia-idade, de classe média-alta, que vive em permanente conflito. Martha é filha do reitor da universidade local; George, professor no departamento de História. Convencem-se de que melhor será destruir os vinte e três (ou dois) anos de casamento pejados de mentiras, de humilhações - de infidelidades - muito embora tenha havido amor entre eles (se é que deixou de haver por algum momento).

    A meio da madrugada, entre copos a mais, passa-se de tudo, sendo que Martha é o vértice do perigoso desafio que aceitam implicitamente. Martha domina George. O seu pai, omnipresente, surge sempre que é necessário diminuir o marido, mostrá-lo como um tipo omisso, inerte, que vive na sombra do sogro, influente e rico na região. A desavença entre ambos, naquela noite, depressa envolve o jovem casal convidado, Nick, professor do departamento de Biologia, e a fútil e imatura Honey. Fica evidente um conluio de interesses que os une, a George e a Martha, e a Nick e a Martha e a Honey. Eles aproximaram-se delas em busca de uma concretização pessoal qualquer, e no caso de Nick, julgando Honey grávida de um filho seu (verificar-se-ia que era verdade). George propõe um jogo, pondo a nu os pecados da mulher, do colega e da mulher do colega. Revela-se o passado, descobrem-se as fragilidades de cada um dos quatro. Às tantas, a verdade e a mentira ombreiam-se mutuamente.

    Um casamento de farsa necessita de um estímulo, e Martha e George encontram-no na fantasia. Ao alvorecer, a "morte" do filho enfraquece-os, era essa a ligação que tinham. Nick e Honey, interpretados por Lia Carvalho e por José Pimentão, saem com os primeiros raios de sol, apercebendo-se da fragilidade daquele vínculo sem afecto, cercado de inseguranças e de  segundas intenções.  Martha e George, entretanto, terminam num abraço de desalento, exaustos do confronto, órfãos da ilusão que haviam criado e meio que descrentes no dia seguinte.

    A peça e o filme são um retrato dos defeitos e dos vícios que nos acompanham. Da desilusão. Da raiva, da necessidade de afirmação no ataque reiterado. Da desordem sentimental, do desequilíbrio emocional, do histrionismo. Do oportunismo. Da carência afectiva. Da frustração, na incapacidade em superar o fracasso pessoal e profissional.

    Gostei particularmente do desempenho de Alexandra Lencastre. Esteve fenomenal. Afinal, parece-me que consegue fazer melhor do que aquelas novelas de cacaracá. Diogo Infante sente-se seguro em palco. A idade amadureceu-lhe o talento. Os jovens actores como que ainda se procuram no meio artístico, mas vi-os com interesse.

     A peça estará no Teatro da Trindade, no Chiado, até ao dia 11 de Junho, e bem vale a pena.

12 de abril de 2017

Caveman.


   Pegando no convite de dois amigos, esta terça conheceu uma pequena alteração. Gosto imenso de teatro. Sem embargo, o teatro envolve uma interacção dos actores com o público, seja na comédia ou no drama, inexistente no cinema. Já experimentei ir ao teatro sozinho e, bem como ao cinema, sinto um vazio, pelo que procuro evitar. Na medida em que a companhia nem sempre está disponível, acabo por passar largos meses sem assistir a uma peça.

   Fomos ao Villaret. A peça foi importada da Broadway, como tantas. Chama-se Caveman, ou, em português, o Homem das Cavernas. Em registo de monólogo, com a tónica inteiramente no humor, Jorge Mourato, de quem nem sou fã, aborda os estereótipos e todo o fosso que se estabeleceu entre o homem e a mulher, numa análise histórica, sociológica, mitológica e psicológica, através dos tempos, desde o início da humanidade até à actualidade. Sozinho em palco, tendo o dever de nos fazer rir, e com uns poucos utensílios ao dispor, Mourato provocou gargalhadas entusiastas do público.

    Não falamos de um humor requintado. Rimos dos nossos papéis, das mesquinhices do quotidiano, de em como o homem e a mulher são distintos. O mais interessante, a par da peça em si, foi perceber a reacção dos casais, sobretudo a do casal que se sentou imediatamente à minha frente. A cada constatação, anuíam, como que se revendo naquela atitude, naquela situação, naquele contexto em particular. É uma generalização, claro está. Assistimos cada vez mais à reversão de papéis, que se acentuou com a emancipação da mulher e com o consequente abandono da função de guardiã do lar. A sociedade actual já não é , porque ainda é em parte, aquela que Jorge Mourato expõe durante duas horas. É-o em larga medida, e acaba por sê-lo após certa idade, ou precisaremos de envelhecer para ter a noção de como mudámos. Milénios de modelos estabelecidos não se alteram como que num breve compasso de tempo.

    Não é só para casais, embora os tenha visto em abundância. Todos acabamos, de uma forma ou de outra, a ter de lidar com estes estereótipos, pelos nossos pais, pelos nossos amigos ou conhecidos. E, a dado momento, nós agimos assim amiudadas vezes, como se fôssemos um objecto de estudo, vendo-nos desde a perspectiva do actor.

     A peça esta em (re)exibição todas as terças-feiras, pelas 21h:30m.

10 de abril de 2017

A justiça portuguesa.


   Desde que terminei a licenciatura e deixei o mestrado num impasse, afastei-me um pouco dos meandros do Direito. Continuo a subscrever a minha revista jurídica, continuo a ler os artigos que lia, embora tenha deixado de lado, definitivamente ou não, a jurisprudência e os sites que visitava. De igual modo, os manuais e os códigos aguardam na prateleira, meio que desconhecendo o seu destino. Eu diria que os dias de esperança já lhes passaram diante.

    O universo da justiça, em Portugal, provoca o desânimo e a consternação. Agudizou-se sobremodo a promiscuidade entre procuradores e alguns órgãos de Comunicação Social. Os julgamentos sumários, a tabloidização dos processos, as reiteradas violações dos direitos das vítimas e dos arguidos levam-me ao descrédito. Os processos estão anos sob investigação, quando há muito os suspeitos já têm a sentença lida perante a opinião pública. Os procuradores extravasam as suas competências, investindo-se do papel de julgadores quando não o têm. O segredo de justiça é uma piada. Ninguém o respeita.

    O jurista, aquele que terminou a licenciatura, acarreta o preconceito de uma área de formação depreciada, regra geral. Será o advogado inescrupuloso que de tudo fará para ganhar as suas causas, aproveitar-se-á da política para vingar na vida, embarcará numa relação íntima com os OPC e os magistrados, e os governantes, para daí extrair vantagens pessoais. Poucos se lembram de que aquele ou aquela jovem poderá querer marcar a diferença, honrando a lei, o compromisso assumido perante a sua consciência, primeiramente, e a sociedade.

    Não estamos perante uma escolha fácil. Só a vocação e o amor ao Direito justificarão a aventura que é ser jurista num país que não respeita o Direito, que não dignifica a justiça e que não confia nas profissões que estejam directa ou indirectamente relacionadas ao Direito. Como o amor desde sempre me faltou, prefiro dedicar-me a outras áreas de interesse, que me dêem menos problemas e que me tragam uma maior concretização pessoal. E é aí que me encontro.